Especialistas avaliam que potencial do RN poderá torná-lo polo de data center

Especialistas avaliam que potencial do RN poderá torná-lo polo de data center
Lideranças empresariais indicam empreendimentos digitais para ampliar uso da energia e enfrentar os efeitos do curtailment. Foto: Magnus Nascimento
O Rio Grande do Norte reúne todas as condições para se tornar um polo de data center dentro da corrida global por este tipo de tecnologia. A avaliação é de especialistas ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE durante a Data Center Conference, realizada pelo Grupo FRG na sexta-feira (23), na Federação das Indústrias do Estado (Fiern), em Natal. O encontro reuniu representantes dos setores de tecnologia, energia, infraestrutura, meio ambiente e engenharia para debater o tema na capital potiguar. A escolha do local para realização do evento se deu exatamente em função das condições que o estado possui para o desenvolvimento de investimentos do tipo.
Tiago Fraga, CEO do Grupo FRG e presidente do Conselho da World Carbon Association (WCA), detalhou que o RN possui diversas aptidões para se tornar um protagonista nesse tipo de empreendimento. “Em primeiro lugar, destaco a questão regulatória e de licenciamento ambiental, com a aprovação da resolução nº 02/2026”, afirma.
Ele ressaltou que grandes data centers necessitam de investimentos da ordem de R$ 1 bilhão. “Então, o investidor precisa de segurança regulatória e de facilidades para aprovação de licenciamento ambiental. O estado ajustou esses dois pontos”, destaca. Tiago Fraga aponta outro fator: a disponibilidade de energia que gera excedente. “Esses três fatores colocam o Rio Grande do Norte como protagonista na corrida por data center, que é uma corrida mundial”, completa.
Os data centers são estruturas que abrigam equipamentos capazes de processar e armazenar informações utilizadas por empresas, serviços públicos e plataformas digitais. O funcionamento desse tipo de tecnologia depende de uma estrutura que envolve fornecimento de energia, conectividade, refrigeração e segurança, conectando diferentes áreas de conhecimento e atividade econômica.
A conferência teve apoio da Fiern, da WCA, Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN), Potigás, Neoenergia Cosern e Banco do Nordeste.
Roberto Serquiz, presidente da Fiern, ressaltou que, diante do ambiente atual, a reunião das diferentes áreas no deabte sobre o tema serve para que o estado possa avançar na busca por soluções que possam aproveitar o excedente energético gerado. “O potencial que nós temos foi construído ao longo de 20 anos de geração de energia que nos trouxe o curtailment, um problema gigante. E as soluções são o armazenamento em baterias, o hidrogênio verde e o data center, as quais devem resolver o impasse entre a geração e o uso intensivo de todo esse potencial”, explicou.
Um dos palestrantes do evento, Gladson Mortoza, frisa que o RN tem todas as condições de se tornar um polo de data center, com um núcleo semelhante ao que é observado no Ceará. “O Rio Grande do Norte tem oferta de energia limpa com custo razoável, está trilhando meios rápidos para licenciar esse tipo de empreendimento e possui um aquífero, que garante segurança hídrica”, frisou. “Então, existe toda uma pré-condição para que o estado se torne um polo de data center”, finalizou.
Para Luis Tossi, vice-presidente da ABDC, o RN tem buscado um ambiente propício para esse tipo de investimento com regulação e licenciamento. Ele ressalta os impactos que esses empreendimentos provocam nas regiões onde são implementados. “A instalação de um data center de 100 megawatts gera de 6 mil a 9 mil postos diretos de trabalho durante a construção, que leva de 18 a 24 meses, e requer algo entre 600 e 800 empregos diretos de mão de obra altamente especializada, como engenheiros, tecnólogos e outros”, descreve.
Emília Casanova: falta definição do Ministério de Telecomunicações sobre cabos submarinos. Foto: Magnus Nascimento
Há necessidade de conectividade via cabos submarinos
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o Rio Grande do Norte tem dado passos importantes para investimentos em data center e deve seguir avançando nesse ambiente. A regulamentação do setor é um desses, mas ainda há a necessidade de conectividade via cabo submarino para a instalação de grandes empreendimentos.
De acordo com Emília Casanova, secretária-adjunta de Desenvolvimento Econômico do Estado (Sedec), o Rio Grande do Norte ainda aguarda definição do Governo Federal para a instalação de, ao menos, um cabo. “Nós temos um estudo de atracação em áreas de interesse, porém, não houve ainda uma decisão do Ministério de Telecomunicações, que inclui, dentre outros pontos, uma definição sobre os locais de instalação”, disse ela. “A gente não sabe se será somente em Natal ou se haverá uma conexão também na região da Costa Branca”, completou a adjunta.
O tema também integrou as discussões da Data Center Conference na sexta-feira, em Natal. De acordo com Gladson Mortoza, gerente comercial da Mendes Holler, empresa especialista em data center, a expectativa é de que a tecnologia chegue ao RN no curto e médio prazos e, assim, o estado deve conseguir instalar grandes estruturas capazes de atender às demandas regionais e globais. “Repito que o estado já possui oferta de energia. Com a expectativa da chegada de conectividade via cabo submarino, o Rio Grande do Norte abre a porta para atender às demandas locais, de todo país e até mesmo internacionais”, frisou gerente, que ministrou palestra durante o evento.
O presidente da Fiern, Roberto Serquiz, afirma que é preciso avançar no diálogo para que a conectividade por cabos submarinos chegue o quanto antes ao estado. “É uma etapa que nós precisamos trabalhar. Os cabos existem no Ceará, então, a ligação com o RN se torna apenas um ponto de diálogo. Com essa conectividade, fechamos mais um ciclo para que, definitivamente, os investimentos cheguem por aqui”, comentou.
O vice-presidente da ABDC, Luis Tossi, destacou que a conectividade vai preparar o estado para, de fato, mostrar aos investidores o potencial que existente no mercado potiguar. “O RN está no caminho certo, criando um ambiente atrativo e correndo atrás da conectividade. O que falta – e é a principal providência a ser tomada – é o estado ir para o mercado e mostrar aos investidores o quanto está preparado para recebê-los”, discorreu Luis Tossi.
Tiago Fraga: grandes data centers necessitam de investimentos da ordem de R$ 1 bilhão. Foto: Magnus Nascimento
Conferência debateu o tema em Natal
Realizada na sexta-feira (23), a Data Center Conference reuniu especialistas com foco no debate sobre a estrutura necessária para abrigar centros de processamento e armazenamento de dados. Entre os palestrantes do encontro, além de Luis Tossi, da ABDC, participaram o especialista em infraestrutura de data centers, Júlio Lima; André Martins, presidente executivo do IBTD; Lucas Themata, presidente da APCA e representante do Grupo Thêmata; e Ricardo Salles, presidente do Instituto BR+.
O setor energético do estado foi representado por Fabíola Almeida, diretora-presidente da Neoenergia Cosern, e Dennis Falcon, diretor técnico e comercial da Potigás. A programação também contou com Roberto Wagner Costa, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN), e Larissa Dantas, diretora institucional da entidade. “É preciso discutir os investimentos para que possamos receber os empreendimentos de forma fluida, segura e ambientalmente sustentável”, disse Roberto Wagner.
O evento também contou com uma lista de convidados, incluindo Hugo Fonseca, diretor administrativo e financeiro da Codern; Olavo Bueno, diretor-presidente do PAX RN; Ângela Paiva, presidente do Conselho do PAX; Mayara Leal, supervisora do Núcleo de Energias Renováveis e Soluções Inovadoras do Idema; e Kepler Brito, representante da OAB/RN no Conema.
Mayara Leal informou não haver nenhum processo de licenciamento em aberto para instalação de data centers de grande porte no estado. Segundo ela, no entanto, já existem consultas feitas junto ao órgão para alinhamento de prováveis projetos. “Ainda estamos na fase de consulta, por parte de investidores, para alinhamento de projetos na nossa central de atendimentos, mas não há nenhum processo de licenciamento aberto”, disse.
Segundo ela, explicar o rito para as licenças envolve a exigência de estudos de análise ambiental, emissão de Termo de Referência do estudo a ser exigido, análise e vistoria dos projetos, além de elaboração de parecer técnico antes da liberação do licenciamento com condicionantes.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte