GINGA Moda RN apresenta desfile com peças feitas por detentos

GINGA Moda RN apresenta desfile com peças feitas por detentos
Apenados do Tecendo Liberdades tiveram uma capacitação prévia em costura. Foto: magnus nascimento
As grades da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, delimitam o espaço físico, mas não conseguiram conter o poder da imaginação com a coleção Revoada, que reuniu dez looks autorais desenvolvidos de forma totalmente colaborativa no Projeto Tecendo Liberdades, uma iniciativa do SENAI Moda RN em parceria com a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP), articulada por meio da pesquisa de doutorado da designer e professora Jéssica Cerejeira, de 30 anos, que investiga os processos criativos em moda desenvolvidos no sistema prisional e trouxe à passarela do GINGA Moda RN, em seu encerramento nesta terça-feira (28), uma iniciativa que utilizou a moda como uma ferramenta de pertencimento.
De acordo com a designer, a produção acadêmica só faz sentido quando rompe os muros da academia. “Quando traz a pesquisa para dentro de espaços que são vistos como marginalizados, onde as pessoas não querem estar. Que hoje a gente possa ter um novo olhar para esse espaço, para essa oficina e que realmente consiga trazer e aproximar indústrias e empresários dessas pessoas que estão ali precisando de oportunidades”, afirma.
Todas as peças foram confeccionadas por 15 detentos a partir de retalhos e excedentes industriais doados por empresas têxteis locais. O grupo transformou resíduos em moda autoral de alto valor estético, participando de todo o processo. “Foi uma maratona fashion, a gente conseguiu correr com tudo, mas realmente foi bem desafiador”.
O conceito debruçou-se sobre o clássico persa A Conferência dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar, obra também trabalhada pelo Grupo Arkhétypos de Teatro em apresentações dentro da própria penitenciária.
De acordo com o SENAI-RN, os apenados que participam do Tecendo Liberdades tiveram uma capacitação prévia em costura em outro projeto do SENAI com o Ministério Público do Trabalho, que capacitou mais de 1.300 pessoas privadas de liberdade.
O diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello, afirmou que projetos como esse integram a sociedade ao sistema prisional, indo além do estigma. “Ninguém quer simplesmente que as pessoas que erram deixem de pagar pelos erros. Mas não quer também que os que erram paguem eternamente. Cabe à sociedade e à empresa industrial, junto com o Ministério Público do Trabalho, estar junto dessa atividade, preparando para que essas pessoas, ao final de sua pena, tenham uma vida que possa ser uma vida digna, com trabalho, com renda para sua família”, ressalta.
Conforme explica Zeca Melo, diretor-superintendente do Sebrae, o GINGA Moda RN impacto na identidade e potiguar. “O que nos diferencia da questão dos desfiles que estão acontecendo agora é o componente da identidade potiguar que está dentro. Todas as empresas, todas as produções que estão desfilando, valorizam o que é nosso, olhando para nossa história, nossa cultura e para o nosso jeito de ser”, finaliza.
Para a chefe do Departamento de Promoção à Cidadania, que integra a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP-RN), Vilma Figueiredo, o olhar sensível à causa oportuniza egressos no mercado de trabalho. “Não é uma luta fácil, a gente precisa buscar apoio na sociedade, porque tem preconceito. A gente busca vencer isso, para que os empresários entendam que eles precisam de uma oportunidade de trabalho, porque senão a gente não vai conseguir diminuir os índices de reincidência”, revela.
Vilma Figueiredo afirma ainda que a concretização deste trabalho feito no sistema prisional foi singular, destacando também que a certificação e a remição de penas foram agregadas à oficina. “Jéssica absorveu o que existia de bom da criatividade daquele grupo”, revela.
Segundo o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho, Gleydson Gadelha, a moda foi apresentada como um fio condutor de liberdade. “Não são só 15 pessoas, são 15 famílias envolvidas mostrar-lhes que, às vezes estando atrás das grades, eles podem se transformar em pessoas livres”, conclui.
Tribuna do Norte