Cultura

Iphan aponta intervenção não autorizada na Coluna dos Mártires

Iphan aponta intervenção não autorizada na Coluna dos Mártires

Iphan aponta intervenção não autorizada na Coluna dos Mártires

Aplicação de tinta sobre o granito da Coluna dos Mártires pode representar um dano – Foto: Júnior Santos

A requalificação da Praça André de Albuquerque, no Centro Histórico de Natal, resultou em uma intervenção não autorizada na Coluna dos Mártires de 1817, segundo fiscalização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O órgão classificou preliminarmente a pintura aplicada no monumento como dano ao patrimônio cultural e recomendou a abertura de Auto de Infração, que poderá resultar em multa e na obrigação de reparar a estrutura.

De acordo com a Nota Técnica do Iphan, a pintura da coluna não foi autorizada pelo órgão federal. Por isso, a equipe técnica recomendou a abertura de Auto de Infração para apurar a irregularidade e definir as medidas necessárias para a recuperação do monumento. A coluna é composta por granito e elementos de cantaria, materiais que possuem características próprias de conservação.

Cíntia Camila Viegas, especialista em Patrimônio Cultural e conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RN), alerta que a aplicação de tinta diretamente sobre o granito e a cantaria da Coluna dos Mártires pode representar uma intervenção potencialmente danosa ao bem cultural.

“Tinta introduz um material estranho ao sistema pétreo histórico, podendo alterar seu comportamento físico-químico, ocasionando a redução da permeabilidade à água, a retenção da umidade e a cristalização de sais, além de provocar possíveis manchas, alterações cromáticas e, consequentemente, perda da legibilidade histórica do bem”, disse a arquiteta e urbanista.

Para Viegas, a retirada da tinta também exige cuidados técnicos e não pode ser tratada simplesmente como um serviço de remoção. “O objetivo não deve ser simplesmente remover a tinta, mas removê-la sem destruir ou alterar a superfície histórica subjacente”, explica.

De acordo com a especialista, não é possível estimar previamente o custo do procedimento, pois será necessário realizar testes para definir a técnica mais adequada. O processo pode envolver água, produtos químicos, métodos mecânicos ou até laser, e o valor também dependerá do grau de especialização exigido dos profissionais responsáveis.

Na avaliação da arquiteta, o principal erro foi iniciar a intervenção sem um estudo prévio do monumento. “A intervenção deveria ter começado não pela pintura, mas pelo conhecimento do monumento”, afirma.

Cíntia Viegas destaca que o primeiro passo deveria ter sido a consulta ao Iphan no RN para a obtenção da autorização necessária antes de qualquer intervenção na Coluna dos Mártires. “O primeiro passo seria realizar a consulta ao Iphan RN para obtenção da autorização para intervenção”, conta.

Além da pintura da Coluna dos Mártires, a fiscalização identificou intervenções na base de uma antiga fonte luminosa e em uma estrela metálica instalada na praça. Nestes dois casos, porém, os técnicos não constataram elementos suficientes para caracterizar dano ao patrimônio. O Iphan recomendou que os responsáveis apresentem documentos e informações sobre os serviços realizados.

A definição de quem será responsabilizado pela intervenção está sob análise da Procuradoria Federal. O órgão deverá avaliar a participação das instituições envolvidas na contratação, gestão e execução da obra para definir quem poderá ser autuado e quem deverá responder pela reparação do monumento.

A requalificação das praças do Centro Histórico de Natal foi realizada com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, por meio de um Termo de Compromisso firmado com o Governo do Rio Grande do Norte.

Em nota, o Iphan informou que a aplicação de tinta no monumento não fazia parte do projeto inicial. “A intervenção alterou a aparência original da pedra e foi considerada tecnicamente incompatível com as boas práticas de conservação de bens pétreos”, disse.

O instituto informou que a remoção da tinta deverá observar critérios específicos de conservação e restauração de cantarias, de modo a evitar que a própria retirada da tinta provoque novos danos ao monumento.

Além da recuperação do bem, o Iphan instaurou procedimento administrativo para apurar as responsabilidades pela intervenção realizada sem sua prévia autorização. “Não há, neste momento, prazo específico que possa ser informado para a conclusão dessa análise jurídica”, diz a nota.

O pedido de autorização para a intervenção na Praça André de Albuquerque foi apresentado pela Secretaria de Estado do Turismo (SETUR/RN), enquanto a execução da obra ficou sob responsabilidade de uma empresa contratada pela Secretaria de Estado da Infraestrutura (SIN/RN).

Segundo o Iphan, o projeto aprovado pelo órgão federal não previa intervenções nos monumentos da praça. A autorização contemplava serviços de manutenção do mobiliário urbano, acessibilidade e paisagismo.

A Secretaria de Estado da Infraestrutura informou que não foi oficialmente comunicada sobre a ação relacionada à obra. A pasta afirmou que poderá adotar as medidas cabíveis caso sejam identificadas demandas.

Tribuna do Norte

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