Canabidiol ganha espaço na medicina veterinária e estudos avaliam seus benefícios

Canabidiol ganha espaço na medicina veterinária e estudos avaliam seus benefícios
Foto: Arquivo TN
Utilizado de forma efetiva em seres humanos para o tratamento de variados problemas de saúde, o canabidiol (CBD) também tem estendido seus benefícios à medicina veterinária. O segmento está descobrindo os benefícios e as possibilidades de uso medicinal desses medicamentos em pets – tendo ainda o cuidado de acompanhar as pesquisas que envolvem a substância e suas particularidades, restrições e diferenças de prescrições para animais e humanos. Já é sabido que o CBD interage com receptores corporais que podem modular dor, inflamação, ansiedade e convulsões.
As prescrições de canabidiol em animais domésticos, por enquanto, têm os cães como maiores pacientes. “Os estudos clínicos ainda são escassos para os gatos”, informa Jorge Rodriguez, veterinário legalmente habilitado para receitar produtos e medicamentos à base de cannabis regularizados no Brasil, seguindo as normas sanitárias e de controle especial aplicáveis. Na prática, o veterinário pode indicar, mas precisa acompanhar de perto.
O canabidiol pode ser indicado para os pets em determinadas situações clínicas. Segundo Jorge, as evidências mais promissoras de tratamento estão no manejo da dor crônica associada à osteoartrite em cães e como terapia complementar na epilepsia idiopática refratária. Também há estudos sobre dermatite atópica, ansiedade, estresse e processos inflamatórios, “porém com evidências ainda mais limitadas”, ressalta.
Para avaliar se o animal é apto para o tratamento, são analisados antes alguns fatores. “Primeiro definimos o diagnóstico e o objetivo terapêutico. Avaliamos espécie, idade, peso, histórico clínico, função hepática e renal, doenças preexistentes, medicamentos utilizados e resposta a tratamentos anteriores”, explica. O médico acrescenta que também são estabelecidos parâmetros para acompanhar se o animal está realmente apresentando benefício clínico.
O tratamento
Na prática, a prescrição é individualizada. Jorge explica que a dose depende do peso, espécie, condição clínica, composição e concentração do produto, medicamentos concomitantes e resposta do paciente. “Estudos em cães frequentemente utilizam administrações a cada 12 horas, mas não existe uma dose universal. O tratamento deve ser acompanhado e ajustado conforme a resposta e a tolerabilidade”, diz.
O organismo dos animais não reage ao medicamento da mesma forma que o dos humanos. “Apesar de humanos, cães e gatos possuírem sistema endocanabinoide, existem diferenças importantes na absorção, metabolismo, biodisponibilidade e sensibilidade aos canabinoides”, afirma. Por isso, enfatiza o veterinário, não se deve simplesmente adaptar uma dose humana pelo peso do animal. Até cães e gatos podem responder de maneiras diferentes.
A prática clínica já registrou diversos benefícios do tratamento com os pets. “Em estudos com osteoartrite, alguns cães apresentaram melhora de dor, mobilidade e qualidade de vida ao longo de semanas, embora os resultados não sejam uniformes entre os estudos. Na epilepsia, é necessário acompanhamento mais prolongado para avaliar a frequência e intensidade das crises”, explica. Mas depende da condição tratada. Por isso é estabelecida uma janela de avaliação terapêutica individualizada.
Na maioria das condições estudadas, o CBD é utilizado como terapia complementar. Na epilepsia, por exemplo, foi estudado em associação aos anticonvulsivantes convencionais. Na medicina veterinária integrativa, pode fazer parte de um protocolo que envolva medicamentos, nutrição, fisioterapia, controle de peso, manejo ambiental e outras estratégias.
Como em qualquer tratamento medicamentoso, efeitos colaterais diversos também podem ocorrer entre os pets e o CBD. Embora geralmente apresente boa tolerabilidade, afirma o médico, podem ocorrer sonolência, alterações gastrointestinais, vômitos, redução do apetite e alterações de enzimas hepáticas, especialmente da fosfatase alcalina em cães.
Há também risco de interação entre o canabidiol e outros medicamentos que o animal já utiliza. “O CBD possui metabolismo hepático e pode interagir com outros medicamentos, especialmente em animais polimedicados. Por isso, o veterinário precisa conhecer medicamentos, suplementos e fitoterápicos utilizados pelo paciente”, afirma Jorge Rodriguez. Dependendo do caso, também são realizados exames laboratoriais e acompanhamento das enzimas e da função hepática.
O uso do canabidiol na medicina veterinária ainda tem muito a ser estudado e testado. Segundo o veterinário, precisam-se de estudos clínicos maiores, protocolos de dose mais bem definidos, dados de segurança em tratamentos prolongados e maior conhecimento sobre interações medicamentosas e diferentes formulações de cannabis. “A maior lacuna está nos gatos. O cenário é promissor, mas a prescrição responsável deve sempre diferenciar o que já possui evidência clínica do que ainda está sendo investigado”, analisa.
Regulamentação
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamentou produtos à base de canabidiol para humanos. Para animais, a regulação ainda está sendo construída. A regulamentação também abriu caminho para produtos veterinários específicos sob competência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Produtos importados costumam chegar ao mercado com outras autorizações e acabam sendo usados de forma adaptada em animais, o que exige orientação veterinária criteriosa.
O Conselho Federal de Medicina Veterinária reconhece a fitoterapia e as terapias complementares na prática clínica, o que permite que veterinários habilitados prescrevam e acompanhem o uso de CBD. “É fundamental avaliar procedência, concentração de CBD e THC, composição, excipientes e controle de qualidade. Um produto destinado ao uso humano não deve ser considerado automaticamente equivalente a um produto veterinário”, conclui o médico.
entenda
O canabidiol (CBD) pode ser opção em casos de:
Dores crônicas (artrite, neoplasias, recuperação pós-cirúrgica);
Epilepsia refratária, quando outros medicamentos não controlam bem as crises;
Ansiedade severa e transtornos comportamentais;
Doenças inflamatórias intestinais;
Cuidados paliativos em doenças avançadas;
Dose, formulação e frequência dependem do peso, espécie, estado geral de saúde e interações com outros medicamentos. Não há receita universal.
Importante observar:
Uso apenas com prescrição médica;
Verificar a procedência do produto. Exigir laudo de composição, concentração de CBD declarada e THC dentro dos limites seguros;
Monitorar o pet de perto. Sonolência, alterações de apetite e diarreia são efeitos que podem aparecer no início;
Informar todos os medicamentos em uso. O CBD interage com outras drogas, incluindo anticonvulsivantes e anti-inflamatórios.
Tribuna do Norte