PF vê excesso em ordem de Mendonça para analisar mensagens de Moraes com Vorcaro
PF vê excesso em ordem de Mendonça para analisar mensagens de Moraes com Vorcaro
Foto: Carlos Moura/STF
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal elaborasse um relatório sobre mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo a Folha de S.Paulo, a ordem foi apresentada de surpresa durante uma reunião realizada em 24 de agosto e foi vista como um desconforto entre integrantes da corporação.
De acordo com a reportagem, investigadores avaliaram que o avanço sobre mensagens envolvendo Moraes e referências a outras autoridades, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, poderia ser interpretado como excesso e levar à anulação de apurações relacionadas ao Banco Master.
O material produzido pela Polícia Federal teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) e reúne trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes. Em uma delas, segundo a Folha, o ex-banqueiro questiona se deveria deixar o País dois dias antes de ser preso quando tentava viajar para o exterior.
A reunião entre Mendonça e integrantes da PF ocorreu a pedido do próprio ministro. Ele tem realizado encontros com equipes responsáveis pelas investigações das operações Compliance Zero, sobre o Banco Master, e Sem Desconto, relacionada a fraudes no INSS e que teve desdobramentos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Segundo investigadores ouvidos pela Folha, a reunião teria sido convocada inicialmente para tratar de uma diligência relacionada a outro assunto. Durante o encontro, porém, os policiais receberam um despacho já elaborado por Mendonça determinando a análise de mensagens armazenadas no celular de Vorcaro.
O ministro deu prazo de 72 horas para que a PF identificasse todas as pessoas mencionadas em determinados diálogos. A ordem abrangia inclusive autoridades com foro no Supremo e agentes cuja apuração depende de procedimentos específicos na Corte.
Parte das conversas envolvendo Moraes já havia aparecido em outros inquéritos, entre eles uma investigação sobre suspeitas de irregularidades na relação entre servidores do Banco Central e Vorcaro. Até então, segundo a Folha, a Polícia Federal não havia identificado nominalmente o interlocutor do ex-banqueiro em alguns desses registros.
PF teme questionamentos sobre investigação
Integrantes da PF relataram à Folha preocupação de que a análise das conversas de Moraes com Vorcaro possa ser interpretada como o início de uma investigação sobre um ministro do STF sem autorização do plenário da Corte. Outro receio seria a possibilidade de que a análise dessas conversas resulte em questionamentos sobre outras apurações envolvendo Vorcaro e o Banco Master.
Na noite desta terça-feira, Paulo Gonet pediu a anulação da decisão de Mendonça. Segundo a Folha, o procurador-geral argumentou que o ministro não poderia utilizar “da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas” e que a ordem foi feita “sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial”.
Gonet também aparece no relatório produzido pela PF. Em diálogos analisados, um advogado teria encaminhado a Vorcaro mensagens atribuídas ao procurador-geral. Procurado pela Folha, Gonet não se manifestou sobre o conteúdo.
Em fevereiro, a PF entregou ao presidente do STF um relatório com mensagens entre Vorcaro e o cunhado, Fabiano Zettel, nas quais discutiam pagamentos à empresa Maridt, que tinha Toffoli entre os sócios. O episódio levou o ministro a deixar a relatoria do caso Master, posteriormente transferida por sorteio para Mendonça. O material acabou arquivado pelo presidente do STF, Edson Fachin.
Relação com a PF
Segundo a Folha, Mendonça também tem acumulado divergências com a cúpula da Polícia Federal sobre a condução das investigações sob sua relatoria.
O ministro teria manifestado insatisfação com a demora em apurações derivadas do caso do INSS e determinado, entre outras medidas, que eventuais mudanças na equipe de investigadores fossem previamente comunicadas ao gabinete.
As decisões também provocaram divergências com a Procuradoria-Geral da República. A PGR defendeu, por exemplo, que o material relacionado a Lulinha fosse remetido à primeira instância por não haver, segundo o órgão, pessoas com foro especial no Supremo investigadas naquele caso.
Procurado pela Folha de S.Paulo, André Mendonça não se manifestou.
Com informações da Folha de S.Paulo
Tribuna do Norte