Cultura

Cassiano Arruda aposta em podcast para fortalecer jornalismo na era digital

Cassiano Arruda aposta em podcast para fortalecer jornalismo na era digital

Cassiano Arruda aposta em podcast para fortalecer jornalismo na era digital

O novo projeto do jornalista Cassiano Arruda no universo digital deve estrear ainda no mês de julho| Foto: Adriano Abreu

Depois de mais de seis décadas dedicadas ao jornalismo, o jornalista Cassiano Arruda Câmara, que assina a coluna Roda Vida na Tribuna do Norte, prepara um novo capítulo de sua trajetória profissional. Aos 82 anos, um dos nomes mais conhecidos da imprensa potiguar ingressa no universo das plataformas digitais com um projeto que reúne comentários diários, entrevistas em formato de podcast e transmissão simultânea por rádio, YouTube e redes sociais.

Longe de representar uma despedida da profissão, ele diz que a iniciativa nasce justamente do desejo de permanecer ativo em um ambiente de comunicação profundamente transformado pela internet, mas sem abrir mão dos princípios que, segundo ele, moldaram sua carreira desde a década de 1960. “Eu sou um homem de 82 anos de idade. Vejo que sou devedor ao jornalismo e acho que meu caminho é tentar continuar participando”, afirma.

O projeto está sendo estruturado com apoio técnico da agência de publicidade ART&C Comunicação, empresa da qual é sócio junto ao seu filho, o publicitário Arturo Arruda. A estreia deve ocorrer ainda este mês e a primeira etapa prevê comentários diários, com cerca de cinco minutos de duração, transmitidos inicialmente por quatro emissoras de rádio — entre elas a CBN Natal — e também pelo YouTube. Em seguida, será lançado um programa semanal de entrevistas em formato de podcast.

Mais do que experimentar uma nova tecnologia, Cassiano vê a iniciativa como uma oportunidade de levar o jornalismo profissional aos espaços hoje ocupados pelas plataformas digitais. “Nós vivemos um momento em que outros meios de comunicação terminaram criando alternativas de informação, mas que eu não considero jornalismo. Eu não nego a força das redes sociais. Elas têm força, mas não são jornalismo”, diz.

Embora reconheça que ainda está descobrindo o funcionamento das novas plataformas, o jornalista acredita que a essência da profissão permanece a mesma, independentemente do suporte utilizado. “Jornalismo é jornalismo em todo canto. Os princípios do jornalismo e os meus princípios continuam sendo a bitola desse projeto.”

O foco da nova produção será o cotidiano do Rio Grande do Norte, especialmente a cobertura política e eleitoral deste ano. Cassiano pretende utilizar a experiência acumulada ao longo de décadas acompanhando campanhas, governos e transformações do Estado. “Eu sempre fiz jornalismo local. Procurei ser um jornalista do Rio Grande do Norte. É isso que espero fazer agora também”, afirma.

Entre os projetos está uma cobertura da campanha eleitoral baseada na análise dos fatos e na contextualização histórica. “O que eu quero fazer é uma cobertura dentro da minha verdade. O que você ouvir pode até ser questionado, mas será aquilo em que acredito, baseado na minha experiência.”

Ele ressalta que o novo espaço também nasce da necessidade de preservar um patrimônio construído ao longo da carreira. “Eu tenho um acervo que não quero jogar fora. Mesmo com 82 anos de idade, acho que posso fazer um programa diário, fazer um podcast e manter isso.”

Independência editorial

Ao falar sobre o projeto, Cassiano faz questão de destacar que pretende preservar a independência editorial, mesmo diante da necessidade de buscar patrocinadores. “Não vou ter opinião à venda. A opinião que o programa vai defender será a do programa. Se aparecer patrocinador, maravilha, mas dentro dos padrões que devem ser adotados.”

A postura, segundo ele, acompanha toda a sua trajetória profissional, marcada pela separação entre jornalismo e atividade publicitária. Durante parte da carreira, atuou também no marketing político, mas afirma que sempre fez questão de manter limites entre as duas funções. “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu me senti impedido de ser marqueteiro e jornalista ao mesmo tempo. Então me afastei do jornalismo enquanto trabalhava nessa área.”

Mesmo entrando em um ambiente dominado por novos formatos e linguagens, Cassiano acredita que há espaço para o jornalismo profissional. “Os meus colegas que vieram do impresso continuam no jornal, continuam no rádio e agora acrescentaram mais uma plataforma. É isso que eu também quero fazer.”

Da 1ª turma de Jornalismo à criação do “Novo Jornal”

A história profissional de Cassiano Arruda praticamente se confunde com a consolidação do jornalismo moderno no Rio Grande do Norte. Integrante da primeira turma do curso de Jornalismo do Estado, criada em 1963 durante o governo de Aluízio Alves, ele iniciou a carreira justamente quando a imprensa potiguar passava por profundas transformações editoriais. Ele relembra que, naquele período, a Tribuna do Norte, liderada por Aluízio Alves, implantava práticas hoje consideradas básicas nas redações, como a pauta diária e o uso do lide. “Quando se falou na Nova Tribuna, nenhum jornal de Natal tinha pauta. Foi quando apareceu a pauta do dia. Antes não tinha. Foi quando se adotou o lide. O repórter passou a cumprir pauta.”

Ainda jovem, ingressou na redação da Tribuna do Norte, onde rapidamente chegou ao cargo de diretor de redação. Sua trajetória também foi marcada pelos anos da ditadura militar. Cassiano foi preso juntamente com o empresário Agnelo Alves e, posteriormente, reconhecido como anistiado político.

Décadas depois, liderou outro projeto que considera um dos mais importantes de sua carreira: a criação do Novo Jornal, que trouxe a proposta de resgatar um jornal de grandes reportagens e repercutiu com suas manchetes com fontes vermelhas e garrafais. Embora o veículo tenha encerrado suas atividades após oito anos, Cassiano Arruda guarda orgulho da experiência. “Nós fizemos um bom jornal. Não tenho do que me envergonhar. O que faltou foi competência empresarial.”

Todo o acervo editorial do periódico foi doado ao curso de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde continua servindo como objeto de pesquisa acadêmica.

“Não vou deixar um acervo morrer”

Além das redações, Cassiano Arruda construiu parte de sua carreira na universidade. Professor da disciplina de Comunicação Publicitária durante 29 anos, afirma que uma das maiores satisfações é encontrar antigos alunos espalhados pelas redações do Estado. “Quando entro em qualquer redação normalmente encontro um, dois ou três ex-alunos. Gente que estudou comigo na universidade ou na própria redação.”

Segundo ele, esse reconhecimento reforça a decisão de permanecer produzindo conteúdo, mesmo após mais de seis décadas de profissão. A chegada ao universo digital representa para Cassiano Arruda muito mais uma continuidade do que uma reinvenção. Embora admita conhecer pouco o funcionamento do YouTube, acredita que o ambiente oferece novas possibilidades para um jornalismo comprometido com a informação. “Estou sendo apresentado ao YouTube com muito prazer. Não tenho grandes habilidades, mas vejo que é possível fazer jornalismo também nesse ambiente.”

O objetivo, afirma, não é competir com grandes veículos, mas continuar fazendo aquilo que sempre fez: informar. “Eu tenho uma trajetória e sentia falta de ter esse veículo de comunicação. Jornalismo de imagem, entrevistas, comentários… a ideia é essa. Continuar fazendo jornalismo.”

Cláudio Oliveira/Repórter

Tribuna do Norte

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