Economia

Comércio de bairro avança em Natal e muda mapa dos pequenos negócios

Comércio de bairro avança em Natal e muda mapa dos pequenos negócios

Comércio de bairro avança em Natal e muda mapa dos pequenos negócios

Bairros como Planalto, Pajuçara, Barro Vermelho, Nossa Senhora da Apresentação e Lagoa Azul registraram forte crescimento. Foto: Alex Régis

O comércio e os serviços cresceram nos bairros de Natal. Entre 2016 e 2026, o número de pequenos negócios ativos aumentou 50%, passando de 68,2 mil para 102,1 mil. Os números acompanham a descentralização da movimentação econômica para diferentes pontos da cidade. O centro histórico, na zona Leste, perdeu espaço; as micro e pequenas empresas se concentraram na zona Sul; e a abertura de novos negócios avançou nos bairros populosos das zonas Norte e Oeste.

Com mais oferta de produtos e serviços perto de casa, moradores relatam que a necessidade de se deslocar até os tradicionais bairros comerciais do Alecrim ou Cidade Alta é menor. Mas essa mudança de comportamento gera preocupação com o esvaziamento dessas áreas comerciais.

As conclusões são do estudo “A nova geografia dos pequenos negócios de Natal”, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Rio Grande do Norte (Sebrae-RN), que utiliza dados da Receita Federal e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), extraídos em 8 de outubro deste ano. O levantamento mostra que bairros tradicionais, como Cidade Alta, Ribeira e Alecrim, perderam micro e pequenas empresas (MEs e EPPs) e concentram apenas 7,9% dos negócios da cidade, ante 13,7% em 2016. Já o eixo formado por Lagoa Nova, Tirol, Candelária e Capim Macio reúne 40% das micro e pequenas empresas da capital.

As zonas Norte e Oeste receberam 49% das aberturas de pequenos negócios entre 2023 e 2025. Bairros como Planalto, Pajuçara, Barro Vermelho, Nossa Senhora da Apresentação e Lagoa Azul registraram forte crescimento na abertura de empresas. A participação desse grupo de novas centralidades no total de micro e pequenas empresas ativas subiu de 10% para 13%, superando a do centro histórico em 2024.

Entre os microempreendedores individuais (MEIs), um grupo se destacou: o de transporte e entregas, que saltou de 613 registros ativos para 5.200 em dez anos. No conjunto dos pequenos negócios, o setor de serviços passou de 43% para 60% de participação, enquanto o comércio caiu de 42% para 26%.

Alinne Dantas, gerente de Gestão Estratégica do Sebrae-RN, avalia que o crescimento de Natal fez surgir novas centralidades econômicas e fortaleceu bairros que antes tinham participação menor na atividade empresarial. “Isso demonstra que o empreendedorismo está se espalhando pelo território e acompanhando novas demandas da população”, afirma.

Essa expansão, porém, não ocorre de maneira uniforme. “Precisamos apoiar o empreendedorismo que surge nos bairros, estimular o crescimento dos pequenos negócios e, paralelamente, contribuir para uma agenda de revitalização econômica das áreas tradicionais”, frisa.

Franklin diz que pequenos negócios atraem grandes redes de supermercados e academias. Foto: Alex Régis

“Novos centros” têm diversidade de produtos

No Planalto, na zona Oeste, a população já conta com um centro comercial próprio, com acesso a produtos de diversos segmentos. O bairro está entre os que ganharam espaço em número de MEs e EPPs entre 2016 e 2026. A paisagem é bem diferente da que se via há alguns anos. O administrador Franklim Robson, da Loja do Futuro, conta que o empreendimento da família foi um dos primeiros a se instalar no bairro, há 20 anos. “Quando a gente chegou, começou a popularizar. Agora, é loja para todo canto”.

Segundo ele, a chegada de pequenos negócios foi acompanhada pelo interesse de grandes redes, como supermercados e academias. Os moradores do bairro deixaram de ir ao Alecrim, por exemplo, para comprar no comércio local. “Hoje a gente escuta muito isto: ‘Vou lá no Alecrim fazer o quê?’. Só vão ao Alecrim aquelas pessoas que não encontram as mercadorias aqui no Planalto”, diz.

Em Nova Descoberta, o comércio também se ampliou nos últimos anos, transformando a região em um pequeno centro comercial diversificado. A Barbearia do Gueto chegou há cinco meses para se somar a esse movimento. Segundo Antônio Rodrigues, conhecido como Tota, um dos sócios do estabelecimento, a proposta é oferecer serviços acessíveis. “Estamos nessa pegada para fazer o serviço do bairro acontecer, com preço de bairro, que o povo chama popularmente de preço de quebrada”, conta. A empresa existe desde 2019 e funcionava em Lagoa Nova.

No setor de eletrônicos, Igno Linhares lançou a empresa IG21 há quase cinco anos. Ele afirma que Nova Descoberta é um bairro de ligação, por onde pessoas de diferentes lugares passam diariamente. Esse movimento atrai clientes à região. “Os bairros hoje não dependem tanto do Alecrim, principalmente esses muito populosos. A zona Norte tem a Pompéia, o Planalto tem a [avenida] Mira Mangue. Você só vai para o Alecrim quando faz uma listagem de muita coisa que vai resolver lá”, afirma Igno.

A avenida Pompéia atravessa parte da zona Norte, especialmente os bairros Pajuçara e Potengi, que é o segundo bairro com mais pequenos negócios ativos (6.172), atrás apenas de Lagoa Nova, com 11.098. Alan Diego, dono da Advance Imports, destaca que “a Pompéia é conhecida como o Alecrim da Zona Norte. Aqui tem de tudo”. A maioria dos clientes é do próprio bairro, mas a loja também atua no comércio digital, vendendo eletrônicos, capinhas, películas e brinquedos.

Kelly Renata, da Kelly Móveis, precisou investir no comércio on-line para ampliar a visibilidade da loja na região. Há dois anos, ela se dedica ao empreendimento ao lado do esposo. “Quando eu cheguei era bem ruim o movimento. Tanto eu como meus vizinhos não mexíamos na internet. Hoje, 99% das nossas vendas são pelo Instagram”. A loja também vende para cidades próximas, como Extremoz e São Gonçalo do Amarante.

Comportamento segue formas de morar e consumir

Enquanto novos centros comerciais surgem, as tradicionais áreas de comércio de Natal necessitam de iniciativas que evitem o esvaziamento. O economista Helder Cavalcanti diz que as mudanças seguem as novas formas de morar, trabalhar e consumir. “Bairros populosos ampliam a demanda por comércio e serviços próximos, enquanto atividades especializadas se concentram em outros polos.”

Segundo ele, além do preço, na hora de decidir onde comprar, o consumidor avalia tempo de deslocamento, transporte, segurança, conforto e confiança no atendimento. “Natal precisa fortalecer suas novas centralidades e criar razões para que as pessoas voltem a frequentar, consumir e investir no Centro”, pontua. Segurança, mobilidade, ocupação dos imóveis e fortalecimento empresarial ações que precisam estar integradas, segundo o economista.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio-RN) explica que o aumento de negócios nos bairros amplia o acesso a produtos e serviços e cria oportunidades de trabalho e renda, mas áreas tradicionais exigem atenção. “A Cidade Alta continua sendo importante corredor comercial, e seu fortalecimento depende tanto da adaptação das empresas quanto da continuidade das ações de revitalização.”

A ampliação do comércio de bairro não é um movimento isolado, mas ocorre à medida que as cidades crescem e se expandem, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL Natal). “O consumidor passou a valorizar cada vez mais a possibilidade de resolver suas necessidades perto de casa, do trabalho ou dos locais que frequenta”, diz em nota. Na avaliação da entidade “é necessário melhorar as condições urbanas, infraestrutura, segurança e estimular a atividade econômica.” Entre as prioridades cita segurança, iluminação, limpeza, acessibilidade, mobilidade e estacionamento.

O secretário municipal de Planejamento de Natal, Vagner Araujo, apesar de positivo, essemovimento expõe desafios. “O crescimento dos shopping centers, a expansão dos serviços para novos bairros, as mudanças nos hábitos de consumo e o avanço do comércio eletrônico e serviços digitais contribuíram para a redistribuição das atividades econômicas”, explica. Ele diz que a revitalização dos bairros centrais está entre as estratégias da gestão municipal.

A Prefeitura, diz, estruturou uma estratégia que combina requalificação urbana, incentivos tributários, preservação do patrimônio histórico e estímulo à habitação por meio de projetos de locação social. As ações incluem parcerias público-privadas e procedimentos de manifestação de interesse na Ribeira, além de intervenções de mobilidade e diálogo com comerciantes no Alecrim e na Cidade Alta.

Fernando Azevêdo/Repórter

Tribuna do Norte

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