Economia do RN cresce acima do Brasil, mas perde ritmo frente ao Nordeste

Economia do RN cresce acima do Brasil, mas perde ritmo frente ao Nordeste
Comércio varejista potiguar cresceu 5,9% no acumulado de 12 meses até junho, acima da alta registrada no Brasil no período – Foto: Alex Régis
A economia do Rio Grande do Norte apresentou crescimento acima da média brasileira no primeiro semestre de 2026, mas ainda avançou em ritmo inferior ao observado no conjunto do Nordeste. O Estado registrou expansão de 1,7% no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC) no acumulado dos 12 meses encerrados em junho, segundo estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste (BNB). No mesmo período, o indicador nacional cresceu 1,5%, enquanto a economia nordestina avançou 2,4%.
Entre os Estados nordestinos analisados, o RN apresentou o terceiro melhor resultado, atrás de Pernambuco, que cresceu 3,1%, e Maranhão, com 2,2%. Ceará registrou 1,6% e Bahia, 1,5%. O estudo aponta ainda que RN e CE apresentaram relativa estabilidade ao longo do semestre, com leve recuperação nos meses mais recentes, enquanto Maranhão e Bahia tiveram trajetória de desaceleração contínua.
Para o economista e educador financeiro comportamental Helder Cavalcanti, o resultado potiguar é positivo, mas precisa ser analisado em perspectiva. Segundo ele, o crescimento acima da média brasileira não deve esconder a distância em relação às economias mais dinâmicas da própria região. “É preciso cautela ao transformar esse número numa comemoração. Quando ampliamos a comparação, percebemos que o Nordeste cresceu 2,4% e Pernambuco, 3,1%.”
O indicador utilizado pelo BNB é o IBC, calculado pelo Banco Central e acompanhado mensalmente como sinalização da evolução da atividade econômica. Diferentemente do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado trimestralmente pelo IBGE, o índice permite uma leitura mais rápida do comportamento da economia.
Embora o estudo sobre o IBC Nordeste não detalhe quais atividades determinaram o desempenho individual de cada Estado, os dados setoriais disponíveis apontam para um comportamento positivo do comércio potiguar. Levantamento específico do BNB/Etene mostra que o comércio varejista do RN cresceu 5,9% no acumulado dos 12 meses até junho de 2026, ante 1,6% no Brasil.
No comércio varejista ampliado, que inclui também veículos, motocicletas e peças, material de construção e atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo, o RN apresentou expansão de 3,2% no mesmo período.
O pesquisador do Etene e autor do estudo sobre a atividade econômica regional, Biagio de Oliveira Mendes Junior, ressalta, porém, que não é possível atribuir diretamente o crescimento de 1,7% do Estado a um conjunto específico de atividades a partir do levantamento. “Isto devido à escassez de dados e de demora na análise”, explica.
Ele destaca, entretanto, o comportamento do comércio varejista. “De qualquer forma, o comércio dos estados do Nordeste tem tido bom desempenho no comércio varejista, tendo o RN alcançado crescimento de 5,9% do comércio varejista, e 3,2% no varejo ampliado”, afirma.
O desempenho do comércio também ajuda a contextualizar uma das características do cenário nordestino. Segundo o BNB, a atividade econômica da região permaneceu acima da brasileira em cinco dos seis meses do primeiro semestre. Em junho, a diferença chegou a 0,9 ponto percentual: 2,4% no Nordeste, contra 1,5% no Brasil.
Para Helder Cavalcanti, porém, o resultado do RN ainda representa mais uma recuperação do que uma mudança consolidada de trajetória. Para ele, “um mês não é suficiente para afirmar que entramos em um novo ciclo de aceleração”. O economista resume o momento potiguar como “um sinal amarelo tendendo para o verde, e não de um sinal verde consolidado”. Na avaliação dele, os próximos meses serão importantes para verificar se a melhora terá continuidade, principalmente em indicadores como investimento, emprego, renda, consumo e atividade empresarial.
Nordeste desacelera, mas ainda supera o Brasil
O desempenho regional, apesar de superior ao brasileiro, também apresenta sinais de perda de fôlego. O estudo do Etene mostra que o IBC-Br nacional cresceu 1,5% no acumulado de 12 meses até junho, mantendo trajetória de desaceleração ao longo do primeiro semestre.
Em janeiro, o crescimento brasileiro era de 2,2%. No Nordeste, a expansão passou de 2,8% em março e abril para 2,6% em maio e 2,4% em junho. Ainda assim, a região permaneceu relativamente mais aquecida que o País.
A agropecuária foi o setor que apresentou a maior expansão no Brasil no acumulado até junho, com alta de 2,5%, seguida pelos serviços, com 1,9%, e pela indústria, com 0,7%. O problema é que a agropecuária perdeu força rapidamente: a taxa anualizada caiu de 12,5% em janeiro para 2,5% em junho. Os serviços, por outro lado, mantiveram desempenho mais estável, em torno de 2%.
Para Biagio Mendes Junior, o cenário exige cautela. “O mais importante risco atual para o crescimento em geral é o alto nível da taxa básica de juros da economia brasileira”, afirma. Segundo o pesquisador, “os setores industrial e de serviços do Nordeste têm tido um desempenho desfavorável nos últimos meses”.
O economista também chama atenção para a relação entre os desempenhos regional e nacional. “De modo geral, o crescimento econômico do Nordeste é muito atrelado ao crescimento do Brasil”, explica. Para ele, a trajetória nacional de desaceleração é um elemento importante para avaliar a continuidade da expansão nordestina.
Desafio é manter expansão consistente
No RN, o desafio apontado pelos especialistas é fazer com que a expansão da atividade econômica ganhe consistência e alcance outros setores.
Para Helder Cavalcanti, o Estado ainda precisa aumentar a velocidade de crescimento. “O RN está crescendo, mas ainda não consegue acompanhar o ritmo das economias mais dinâmicas da nossa região”, afirma. Na avaliação dele, o desafio é transformar o crescimento conjuntural em desenvolvimento com “investimento, produtividade, geração de empregos de maior qualidade e ampliação da renda”.
O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, vê potencial para uma expansão mais consistente a partir da indústria e das atividades ligadas às características econômicas do Estado. “A indústria de transformação vem apresentando um crescimento gradual e, quando olhamos para o potencial dos nossos recursos naturais, destacamos as energias renováveis, o petróleo, a mineração, a pesca, a fruticultura e o sal”, afirma.
Para o presidente da Fiern, entretanto, o aproveitamento desse potencial depende de condições que vão além da atuação empresarial. “O desenvolvimento desses setores depende também da capacidade do Estado de atender às suas demandas e criar as condições necessárias para que possam avançar”, diz.
O presidente da Fiern defende uma articulação mais próxima entre os setores público e privado para garantir estabilidade ao crescimento. “Para que o crescimento seja estável, é preciso compreender que essa condição não depende apenas do setor privado”, afirma. Segundo ele, são necessários “apoio, segurança jurídica, agilidade e cumprimento de suas responsabilidades institucionais”, defende Roberto Serquiz.
Cláudio Oliveira/Repórter
Tribuna do Norte