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Eleição: primeiro voto desafia jovens do RN a construir opinião política

Eleição: primeiro voto desafia jovens do RN a construir opinião política

Eleição: primeiro voto desafia jovens do RN a construir opinião política

Beatriz Galvão, de 16 anos, considera que participar das eleições, mesmo sem a obrigatoriedade, foi uma decisão ligada ao interesse pela política. Foto: Adriano Abreu

A primeira experiência eleitoral coloca os jovens diante de uma escolha inédita: decidir quem deve representá-los. No Rio Grande do Norte, 37.243 adolescentes de 16 e 17 anos estão aptos a ter a primeira experiência diante das urnas. Já entre os eleitores de 18 anos, 36.537 podem votar pela primeira vez em uma eleição geral. Para eles, a experiência foi marcada por expectativa, ansiedade e curiosidade.

Além de escolher os candidatos, o primeiro voto envolve a formação de uma opinião sobre política, a avaliação de propostas e a identificação com as pautas que afetam o cotidiano. Aos 18 anos, Lívia França votou pela primeira vez nas Eleições 2026. A experiência, segundo ela, trouxe uma percepção maior sobre escolher quem prioriza pautas importantes para ela. “Eu acho que a gente votar pela primeira vez faz a gente perceber que a gente tem uma responsabilidade maior e que a gente pode tomar decisões que afetem diretamente o nosso futuro”, afirmou.

Apesar de já ter idade para votar na eleição municipal de 2024, Lívia não se sentia preparada para tomar uma decisão. Esse ano, no entanto, começou a pesquisar sobre política e a conhecer as propostas dos candidatos para fazer uma escolha consciente “Eu fui procurando entender melhor as propostas dos candidatos, o que cada um defendia, para não votar em alguém sem saber no que eu estava votando”, contou.

Entre os temas que orientaram sua escolha, estavam as condições de vida das pessoas em situação de rua, além de saúde e educação. Ela buscou considerar como as propostas poderiam contribuir para melhorar a realidade de pessoas em situações difíceis e garantir direitos básicos à população.

Na preparação para o primeiro voto, ela também conversou com familiares para conhecer diferentes pontos de vista. “Eu pesquisei para formar minha própria opinião, afinal, a decisão era minha”, comenta.

O irmão de Lívia, Benjamin França, de 16 anos, também votou pela primeira vez, mesmo sem a obrigatoriedade prevista para sua faixa etária. Ele decidiu participar das eleições como forma de exercer a cidadania.

Para ele, o primeiro voto representa uma oportunidade de participar das decisões que influenciam o futuro do país. “Eu já tenho opinião formada sobre os candidatos e eu sei das propostas”, considera.

A preocupação com a corrupção foi um dos critérios considerados por Benjamin na escolha dos candidatos. Para definir seu voto, o adolescente buscou informações sobre os concorrentes e suas propostas ainda no primeiro turno. Beatriz Galvão, de 16 anos, considera que tirar o título de eleitor e participar das eleições, mesmo sem a obrigatoriedade, foi uma decisão ligada ao interesse pela política. Ela conta que, na hora de escolher os candidatos, ela considera os princípios, os valores e as atitudes de cada um.

A primeira votação, segundo Beatriz, causou satisfação em exercer a cidadania diante de uma eleição importante para o futuro do país. “Eu ainda estou conhecendo algumas propostas, mas já tenho conhecimento sobre o assunto para tomar as minhas decisões”, completa.

Lívia e Benjamin França também vão votar pela primeira vez mesmo sem obrigatoriedade. Foto: Adriano Abreu

A adolescente também destaca a influência da família e das redes sociais na formação da opinião política de jovens da sua idade. “A família já influencia desde cedo, me ensinando, com base no que é certo e errado, a fazer escolhas que possam contribuir ou destruir o nosso país. E a mídia interfere de modo manipulador, podendo ser de forma positiva ou negativa, uma vez que as redes sociais estão presentes em todas as etapas do nosso cotidiano”, expressa.

Davi da Silva Sobrinho, de 16 anos, sempre teve interesse em participar ativamente da política e viu na retirada do título de eleitor uma oportunidade de exercer esse direito. “Prezo pela manutenção da democracia e preservação de direitos fundamentais, sejam eles sociais, humanos ou de qualquer natureza, bem como a preservação do ecossistema brasileiro”, observa.

Ele também relata que as discussões políticas com familiares, que têm posicionamentos diferentes dos seus, ajudam a refinar suas opiniões. “Acaba que nas discussões minha opinião é refinada, seja para o que eu acredito ou para o que eles defendem”, revela Davi.

Redes sociais podem reforçar bolhas de opinião

Segundo o cientista político Anderson Santos, as redes sociais podem influenciar a formação da opinião política dos jovens ao expô-los a influenciadores e conteúdos de apelo emocional, influenciando as aspirações e reforçando bolhas.

“Por essa razão, as famílias devem estar atentas para discernir onde se manifesta o saudável comportamento desafiador da juventude e onde se manifestam comportamentos extremistas”, explica.

O cientista considera que a adolescência é uma fase de construção da identidade, marcada pelo questionamento de autoridades e instituições. Nesse processo, a influência dos amigos, da família, da escola e das redes sociais contribui para a formação das preferências políticas. “Os amigos pesam muito porque, nessa idade, o pertencimento ao grupo é importante”, disse Anderson Santos.

O cientista político destaca que a influência familiar não ocorre apenas dos pais para os filhos. Os jovens também podem levar para casa debates acompanhados na escola e nas redes sociais, influenciando as opiniões dos familiares.

Ao mesmo tempo, divergências políticas podem gerar conflitos quando as escolhas dos adolescentes não correspondem às expectativas dos pais. Experiências cotidianas também podem despertar o interesse pela política. Questões como acesso à educação, transporte, segurança pública e busca pelo primeiro emprego ajudam a aproximar os jovens de determinados temas. “A opinião política do adolescente se forma junto com a sua identidade. Isso acontece porque o adolescente está no começo da trajetória pessoal e profissional e procura um lugar no mundo”.

A psicóloga especialista em pais e filhos Thaymara Pontes explica que a decisão de votar voluntariamente pode representar uma oportunidade de o adolescente exercer protagonismo e participar das decisões coletivas. “Quando decide participar de uma eleição espontaneamente, essa escolha pode expressar o desejo de exercer protagonismo, afirmar valores pessoais e participar de decisões coletivas”, afirma.

A especialista ressalta, porém, que o interesse pela política não significa necessariamente maior maturidade emocional ou cognitiva. Para ela, o mais importante é a oportunidade de desenvolver a reflexão e a responsabilidade pelas próprias escolhas. No ambiente familiar, Thaymara recomenda que os pais estimulem o pensamento crítico dos adolescentes, em vez de impor opiniões políticas.

Uma das estratégias é incentivar questionamentos sobre a origem das informações, os argumentos apresentados e as consequências de cada decisão. “O valor formativo da participação está justamente na possibilidade de realizar uma escolha consciente, fundamentada e coerente com suas próprias reflexões”, destaca.

A psicóloga também chama atenção para a importância da educação midiática, especialmente diante da exposição dos jovens às redes sociais. Segundo ela, os pais podem orientá-los a diferenciar fatos de opiniões, verificar fontes e reconhecer conteúdos que possam disseminar desinformação.

Número de adolescentes aptos a votar cai 19% no RN

Conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de adolescentes de 16 e 17 anos aptos a votar no Rio Grande do Norte caiu 18,98% em 2026, na comparação com as eleições gerais de 2022. Neste ano, 37.243 jovens dessa faixa etária estão aptos a votar, contra 45.967 no pleito anterior.

Estar apto a votar significa ter título de eleitor e estar com a situação eleitoral regularizada para participar da votação. Para adolescentes de 16 e 17 anos, o voto é facultativo.

O cientista Anderson Santos aponta que a redução no número de adolescentes pode estar relacionada ao desinteresse pela política. Segundo ele, o primeiro turno das eleições foi marcado por um desinteresse geral, identificado em pesquisas de opinião, além de uma campanha com poucas propostas concretas.

Entre os adolescentes aptos a votar no estado, 14.621 têm 16 anos e 22.622 têm 17 anos. As mulheres são maioria, com 19.096 eleitoras, enquanto os homens somam 18.147 eleitores. A menos de um ano das eleições de 2026, o TSE lançou iniciativas para incentivar adolescentes e jovens a tirar o título de eleitor e participar do processo eleitoral.

A mobilização buscava ampliar o alistamento eleitoral entre pessoas de 16 e 17 anos, faixa etária em que o voto é facultativo. O alistamento eleitoral pode ser solicitado a partir dos 15 anos. No entanto, para votar, é necessário ter completado 16 anos até a data do primeiro turno das eleições.

Ananda Miranda/Repórter

Tribuna do Norte

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