Economia

Empresas têxteis do RN modernizam processos com o uso da tecnologia

Empresas têxteis do RN modernizam processos com o uso da tecnologia

Empresas têxteis do RN modernizam processos com o uso da tecnologia

A Matersol foi uma das indústrias potiguares atendidas pelo Programa NE 4.0, da Sudene, em parceria com a Fiern e o Instituto Metrópole Digital (IMD) da UFRN | Foto: Magnus Nascimento

A transformação digital das empresas do setor têxtil tem sido cada vez mais uma realidade no Rio Grande do Norte, com vistas ao aumento de produtividade, redução de custos e melhorias de gestão. Os exemplos estão em Natal, como é o caso da Matersol, que conseguiu aumentar as vendas em 34% este ano graças a uma ferramenta que reúne dados sobre produção, qualidade e frequência de colaboradores; e também no interior, como é o caso da Zaja, que conseguiu um ganho de 25% no tempo médio de produção de processos internos, dentre eles, a produção de peças.

Para ampliar o alcance das digitalizações do setor, o Programa NE 4.0, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em parceria com a Federação das Indústrias do RN (Fiern) e o Instituto Metrópole Digital (IMD) da UFRN, atendeu, até agosto deste ano, 30 empresas potiguares e estruturou 20 projetos de inovação no estado. Um desses projetos resultou, em fevereiro de 2026, na implantação de um software na Matersol, empresa de confecção têxtil com sede na zona Norte de Natal.

A ferramenta reúne indicadores como produção, qualidade e frequência de colaboradores. O acompanhamento dos dados em uma único lugar permitiu à Matersol melhorar os processos de produção, o que gerou uma redução de custos de 17% desde o início do ano e um crescimento de 34% nas vendas da empresa.

“Todos os dados relacionados a compras, produção e informações dos setores financeiro e comercial estão reunidos em uma única DRE (Demonstração do Resultado do Exercício). Basicamente, é um painel que nos permite tomar decisões para qualquer área da empresa”, detalha a diretora-executiva Déborah Sayonara.

Graças ao software, segundo ela, foi possível produzir em uma velocidade maior, reduzir o desperdício e melhorar o desempenho do time de colaboradores.

Thaísa Lopes, gerente de produção da Matersol, detalha que os indicadores acompanhados por meio da ferramenta estão interligados e que, por meio do monitoramento, é possível melhorar os processos internos. “A cada duas horas consigo acompanhar como está a produção, com informações sobre o número de peças por minuto”, explica.

O software também conta com o cadastro de toda a mão de obra da empresa e controle diário da presença de colaboradores, o que torna possível compreender a capacidade de produção no final do mês, fazendo uma relação entre o que foi fabricado e a quantidade de trabalhadores atuantes. “Além disso, tenho o gráfico dos principais itens produzidos. No indicador sobre qualidade, eu tenho os processos com as peças que apresentaram defeito”, afirma Thaísa Lopes.

Quanto à frequência de colaboradores, as informações no software apresentam os motivos mais comuns para as ausências. “Esses dados são importantes, porque a ausência influencia diretamente na produção final”, pontua a gerente de produção.

Na Zaja Confecções, na cidade de Cerro Corá, a digitalização começou bem antes, em 2018. “É uma ferramenta criada pela própria empresa, utilizada inicialmente para o controle de produção”, conta o diretor-presidente Zeca Araújo.

As informações traziam, em tempo real, a quantidade de peças produzidas, além do desempenho dos colaboradores, de forma individual, por equipes e a eficiência da empresa como um todo. Com a evolução de marca própria para private label, outros indicadores passaram a ser acompanhados na ferramenta: estoque, compra de produtos, insumos e tecidos e o tempo gasto em cada processo – desde a compra dos insumos à saída das peças da loja.

“Com a tecnologia, nós conseguimos identificar gargalos, planejar a entrada de novos itens e observar a polivalência dos colaboradores. Quando chega um produto novo, a gente já sabe quem é o profissional com melhor aptidão para desenvolvê-lo com qualidade e velocidade. Isso nos deu mais agilidade nos processos, com um ganho de tempo de 25%, inclusive na produção das peças. O controle do estoque em tempo real e o acompanhamento do faturamento também foram outros ganhos muito importantes”, afirma Zeca Araújo.

Déborah Sayonara: software ajuda a produzir com mais velocidade | Foto: Magnus Nascimento

Digitalização torna mercado mais competitivo

A digitalização das empresas do setor têxtil é uma necessidade e quem não se adaptar poderá ficar para trás por falta de competitividade, na avaliação de Zeca Araújo, da Zaja Confecções. “Possivelmente, a empresa que não se adaptar, vai estar fora do mercado”, fala o empresário.

De olho na necessidade de ampliar a transformação no setor, a Sudene desenvolveu uma iniciativa para o setor têxtil no RN, o programa NE 4.0. Após dois anos de atividades, 30 empresas foram atendidas e 20 estruturaram projetos de inovação. A iniciativa qualificou 100 funcionários, gestores e 40 estudantes do ensino médio.

O programa reúne ações voltadas à adoção de tecnologias da Indústria 4.0, com foco na modernização de processos produtivos e na ampliação da capacidade de inovação das empresas.

A Sudene contou com a Universidade de Pernambuco (UPE) na coordenação regional, enquanto a UFRN, por meio do IMD, executou as atividades no estado potiguar.

O coordenador do programa no estado, Anderson Paiva Cruz, professor do Departamento de Informática e Matemática Aplicada (DIMAp) da UFRN, explicou que o programa foi dividido em quatro etapas.

“Na primeira, foi feito um diagnóstico pela Fiern para a escolha das empresas; na segunda, começamos a capacitar os funcionários dessas empresas. Ao todo, 100 pessoas foram capacitadas em duas turmas de 50. A terceira fase foi a implantação dos projetos de inovação em 20 empresas. As capacitações contaram com 40 horas de temáticas ligadas à indústria 4.0. Os temas foram automação industrial, gestão digital e biointeligência”, descreve Anderson Paiva Cruz.

A maior parte dos trabalhos concentrou-se no planejamento estratégico para a gestão digital. Também foram desenvolvidas iniciativas de automação, com implementação de hardware e sistemas integrados, além de projetos para digitalização de fluxos industriais e operacionais. Entre as soluções elaboradas, estão painéis de Business Intelligence (BI) para apoiar a tomada de decisões.

A etapa final do programa foi voltada à formação de estudantes do ensino médio em tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0, por meio de atividades de extensão. No RN, cinco estudantes foram selecionados para participar diretamente dos projetos desenvolvidos na etapa anterior.

Helane Cruz, presidente do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral do Rio Grande do Norte (SIFT-RN) considerou o projeto um sucesso. “Incorporar a tecnologia ao nosso fazer diário nos dará a oportunidade de ampliar nossa competitividade, reduzir erros humanos e potencializar a atuação do nosso time operacional. O mercado muda rapidamente, e nós, profissionais do setor têxtil, precisamos estar preparados para acompanhar essa transformação. E este projeto representa um passo importante nessa jornada”, falou.

Anderson Paiva, coordenador do NE 4.0 e professor da UFRN | Foto: Cedida

Setor em expansão

A digitalização do setor têxtil ocorre em meio à expansão observada no estado. Dados do Data Nordeste, plataforma de dados da Sudene, indicam que as exportações do Rio Grande do Norte de matérias têxteis e suas obras somaram aproximadamente R$ 10 milhões em setembro de 2026. No acumulado do ano, o valor chegou a cerca de R$ 80 milhões. A categoria inclui matérias-primas de origem vegetal e animal, como algodão e lã, fios e filamentos, além de produtos acabados, como tecidos e peças de vestuário.

O setor têxtil potiguar possui mais de 20 mil empregos formais. De acordo com a Fiern, a cadeia de confecções é o maior empregador da indústria de transformação do Rio Grande do Norte, com um PIB pouco superior a R$ 1 bilhão/ano (4,2% do Produto Interno Bruto total) e massa salarial de R$ 706 milhões injetados na economia.

Diante dos números, iniciativas como o Programa NE 4.0 são estratégicas para promover a modernização das empresas, na avaliação de Susie Macedo, secretária-executiva da Comissão Temática de Inovação, Ciência e Tecnologia (COINCITEC) da Fiern. “Essa capacitação é fundamental para assegurar o diferencial competitivo das empresas.”, explicou.

De acordo com a Sudene, o programa teve orçamento geral de R$ 770,6 mil, contemplando, além do RN, os estados da Paraíba e de Pernambuco.

“O projeto concentrou-se na identificação de gargalos operacionais e no desenvolvimento de melhorias contínuas. A metodologia consistiu na formação de trios para cada projeto, sendo um estudante bolsista, um consultor e um representante da empresa acompanhada. Ressalto que uma mesma empresa pôde desenvolver múltiplos projetos, conforme suas necessidades específicas”, explicou o economista da Sudene, Laytemir Canel, responsável pelo acompanhamento da iniciativa.

Tribuna do Norte

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