Saúde

Especialistas alertam para aumento na busca por diagnósticos de TDAH

Especialistas alertam para aumento na busca por diagnósticos de TDAH

Especialistas alertam para aumento na busca por diagnósticos de TDAH

A neuropsicóloga Gleyna Lemos explica que estimativas indicam que o transtorno afeta de 5% a 8% da população geral | Foto: Magnus Nascimento

O Dia Mundial de Conscientização do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), celebrado em 13 de julho, acende o alerta para o crescimento expressivo na busca por diagnósticos e tratamentos no Rio Grande do Norte. De um lado, o avanço no acesso à informação atua no combate à subnotificação histórica de uma condição neurobiológica estrutural; de outro, profissionais de saúde enfrentam o avanço do “modismo” e de autodiagnósticos impulsionados por meio de conteúdos na internet, que frequentemente confundem sintomas cotidianos e cansaço com o transtorno real.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento de origem genética que se manifesta ainda na infância e pode acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida. É caracterizado por prejuízos marcantes de desatenção, inquietude e impulsividade, comprometendo diretamente o foco, a capacidade de organização e o controle de impulsos no dia a dia. Embora não existam estudos epidemiológicos específicos para o Rio Grande do Norte, especialistas apontam que os indicadores locais acompanham a prevalência global.

A neuropsicóloga Gleyna Lemos explica que estimativas internacionais indicam que o transtorno afeta de 5% a 8% da população geral, índice que sobe para uma faixa de 5% a 15% quando analisada estritamente a população infantojuvenil. Segundo a profissional, o aumento observado nos consultórios potiguares não decorre de um surto epidemiológico, mas sim de transformações sociais. “As evidências científicas sugerem que não houve uma explosão na incidência do TDAH. O que temos observado é que tem se falado mais abertamente sobre o tema, o que contribui para reduzir o estigma e tornar o transtorno mais reconhecido”, afirma Gleyna Lemos.

Ela acrescenta que o maior preparo de profissionais das áreas de saúde e educação tem facilitado a identificação dos sinais de alerta, levando também muitos adultos a buscarem avaliação após reconhecerem dificuldades persistentes de atenção, organização e autorregulação que, antes, eram erroneamente atribuídas a traços de personalidade, desinteresse ou falta de esforço.

“O diagnóstico do TDAH é de natureza estritamente clínica e deve ser conduzido por especialistas qualificados, como psiquiatras ou neurologistas”, alerta. Conforme detalha Gleyna Lemos, o processo exige uma análise ampla do histórico de desenvolvimento do paciente desde a infância, avaliando a persistência das manifestações ao longo do tempo e a ocorrência de prejuízos em múltiplos contextos, como a escola, o trabalho, a família e as interações sociais. “A avaliação neuropsicológica atua de forma complementar, mapeando o perfil cognitivo e auxiliando no diagnóstico diferencial para afastar ou identificar comorbidades”, explica.

Checklist de sintomas do TDAH

O psiquiatra Walter Barbalho, chefe da unidade de saúde mental do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), adverte sobre o perigo do uso de listas simplificadas de sintomas que circulam em redes sociais. “O que acaba atrapalhando muito hoje em dia é que as pessoas fazem testes de triagem na internet e ficam fazendo um checklist de sintomas, e não é bem assim. É um modo de funcionar, e o médico tem que prestar atenção sobre isso, colher a história e ver como é que essa pessoa funciona”, pontua o psiquiatra.

Walter Barbalho esclarece que a desatenção é um sintoma transversal presente em diversas condições clínicas e cotidianas, com mecanismos e origens completamente distintos do TDAH. De acordo com o especialista, o indivíduo apresenta dificuldade para se concentrar devido à hiperatividade mental direcionada a problemas e demandas futuras. “Você não consegue se concentrar, mas porque fica pensando em muito problema. Você tenta ler um livro, só que não consegue porque está pensando que precisa chegar na hora, resolver o problema do aluno, escrever o resto de um capítulo”, exemplifica o médico. A perda de foco decorre da falta de disposição, do desânimo estrutural e da lentificação cognitiva. “A pessoa lê e esquece rápido o que acabou de ler”, detalha.

De acordo com o psiquiatra, passar duas ou três noites sem dormir reduz drasticamente a capacidade de concentração de qualquer indivíduo neurotípico; contudo, trata-se de um quadro reversível após o repouso adequado. Além das patologias, o estilo de vida moderno e a exposição excessiva a telas “se assemelham” aos sintomas do transtorno. Walter Barbalho pondera que o cérebro condicionado a estímulos rápidos e interações curtas desenvolve dificuldades naturais quando submetido a tarefas que exigem atenção prolongada. “A exposição nas redes sociais acaba sendo a informações muito curtas, as coisas chegam muito mastigadas. Com isso, tem-se certa dificuldade de reter aquela informação e, quando precisa concatenar mais ideias, sua mente terá dificuldade para isso. Então, o excesso de telas pode, sim, dificultar, pode imitar alguns sintomas [do TDAH]”, pontua o chefe da unidade de saúde mental do HUOL.

A banalização do termo TDAH gera consequências diretas para a saúde pública, especialmente no que diz respeito à automedicação com psicoestimulantes. O uso indiscriminado dessas substâncias por indivíduos sem o transtorno, frequentemente estudantes universitários e candidatos a concursos públicos em busca de ganho de desempenho cognitivo, é alvo de forte preocupação médica.

Walter Barbalho enfatiza que a literatura técnica aponta controvérsias significativas sobre a eficácia de estimulantes em cérebros saudáveis, com pesquisas controladas por placebo indicando que o suposto ganho cognitivo muitas vezes decorre do efeito psicológico da expectativa do usuário. O psiquiatra alerta para os riscos orgânicos graves associados à prática: “São medicações que aumentam a ansiedade, têm efeitos cardiológicos, estão associadas a infarto e arritmias. Pessoas morrem por esse uso de medicação inadequado, porque mesmo que você não saiba que tem esse problema, toma um remédio, o remédio gera arritmia e isso pode gerar problemas maiores.”

A banalização do termo TDAH gera consequências diretas para a saúde pública | Foto: Magnus Nascimento

Tratamento multidisciplinar na infância

Se, na idade adulta, o transtorno exige a definição dos sintomas para a organização da rotina, na infância o tratamento multidisciplinar precoce é apontado como um divisor de águas para o desenvolvimento. No entanto, a assistência esbarra em problemas estruturais de acesso no Sistema Único de Saúde (SUS).

A dona de casa Emilly Marine Alexandre, de 25 anos, enfrenta essa realidade na criação de seu filho único, Carlos Emanuel, de 10 anos. O menino possui diagnóstico combinado de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH, identificados em um processo investigativo iniciado em 2023, com a emissão dos laudos entre os anos de 2024 e 2025.

Emilly relata que os primeiros sinais manifestaram-se por meio de severas dificuldades de socialização no ambiente escolar e comunitário, atrasos no aprendizado da leitura em comparação com crianças da mesma faixa etária e um apego intenso a objetos de transição. Aos 10 anos, Carlos Emanuel ainda faz uso de chupeta e mamadeira.

A busca pelo diagnóstico foi descrita pela mãe como uma trajetória árdua. “A grande jornada e a maior dificuldade é não termos uma grande quantidade de profissionais pelo SUS. Sabemos que, assim como minha família, outras muitas não têm condições de pagar essas consultas, que são caríssimas. Foi desafiante conseguir algo que é direito do meu filho”, desabafa.

Apesar de considerar o diagnóstico um norte essencial para a família, Emilly aponta o impacto da escassez de vagas na evolução do filho. Carlos Emanuel faz uso do medicamento Risperidona, mas o acesso às terapias complementares pelo SUS tem sido raro. “Não foi falta de ‘correr atrás’, mas falta de vaga e oportunidades. Hoje ele tem 10 anos, pouca evolução desde a descoberta do diagnóstico. Seguimos tentando”, afirma a mãe, que recentemente mudou-se do interior do estado para o município de São Gonçalo do Amarante e aguarda o início de novos atendimentos agendados para o mês de setembro.

A experiência escolar de Carlos Emanuel também reflete os desafios de inclusão. A mãe relata ter enfrentado episódios de preconceito e despreparo por parte de funcionários em instituições de ensino anteriores. O cenário modificou-se na atual escola do filho, onde ela observa uma aplicação real das práticas inclusivas.

De acordo com Emilly, apesar do diagnóstico e dos enfrentamentos atípicos, os sintomas não devem ser ignorados pelos pais, apesar das incertezas sobre os sinais. “Não tenham medo. Seus filhos pedem socorro. Mães e pais, escutem sempre seus corações, não importa o que os outros dizem, a gente sabe, a gente sente. A sociedade vai julgar muito, vocês vão ouvir frases como ‘ele não parece que tem nada’. Lute incansavelmente por sua criança e jamais desista no meio do caminho.”

O impacto do diagnóstico na vida adulta

A rotina de quem possui diagnóstico do transtorno ilustra a importância do suporte especializado. A farmacêutica e técnica em farmácia Larissa Melo, de 34 anos, recebeu seu diagnóstico definitivo aos 24 anos, após uma vida inteira marcada por incompreensão. “Eu sempre fui distraída e avoada. Procrastino muito e sou desorganizada. Sofri muito bullying por ser diferente dos outros na infância”, relata Larissa. Seus pais demonstravam desconfiança desde cedo devido aos traços de timidez e desorganização, mas a confirmação formal ocorreu apenas na idade adulta.

Larissa descreve que o laudo médico trouxe uma sensação de alívio, servindo como uma explicação para as barreiras que enfrentava. Atualmente, seu tratamento é focado em sessões de terapia ocupacional, nas quais realiza exercícios de equilíbrio e estímulos cognitivos. “Só mudou minha memória com a terapia ocupacional”, pontua a técnica, que utiliza suporte medicamentoso restrito ao controle da ansiedade associada.

Ao avaliar o cenário de disseminação de conteúdos digitais que, por vezes, incentivam pacientes a buscarem laudos sem apoio médico, Larissa deixa um alerta partindo de sua própria vivência: “O meu diagnóstico trouxe alívio. Muita gente é distraída, esquecida e acha que tem TDAH. O TDAH em adultos não é preguiça, falta de força de vontade ou modismo de internet. É uma dificuldade real de fazer as coisas.”

Bruna Torres/Repórter

Tribuna do Norte

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