Cultura

Gamboa do Jaguaribe mantém vivas memórias dos povos indígenas no RN

Gamboa do Jaguaribe mantém vivas memórias dos povos indígenas no RN

Gamboa do Jaguaribe mantém vivas memórias dos povos indígenas no RN

A área da Gamboa, que anteriormente abrigava viveiros de camarão, passou por um processo de recuperação ambiental| Foto: Alex Régis

Em meio a cinco hectares de mata reflorestada e manguezal na Redinha, o sítio histórico Gamboa do Jaguaribe preserva não apenas a natureza, mas também a memória dos povos indígenas que habitaram a região antes mesmo da fundação de Natal. O espaço reúne ações de educação ambiental, valorização da ancestralidade e resgate histórico, aproximando visitantes das origens do território potiguar e dos saberes dos povos originários.

O caminho passa por ocas, lago, trilhas e áreas de mangue recuperadas. Cada espaço ajuda a contar uma história. “Aqui a gente trava uma uma desconstrução do que é o povo indígena. A gente traz a educação para mostrar que estamos presentes em todos os lugares”, explica Jaguar, integrante do projeto.

À primeira vista, a paisagem chama atenção pela tranquilidade. Mas basta avançar alguns metros pelas trilhas para ver a história ser contada. O sítio histórico surgiu há 20 anos com o replantio de manguezal e mata nativa e, desde então, tornou-se um espaço de preservação ambiental, onde escolas e grupos interessados em saber mais sobre a história do RN visitam para turismo pedagógico.

“Aqui foi um local onde começou a construção da cidade de Natal. O primeiro acordo feito para construção da Fortaleza do Reis Magos foi feito aqui com Potiguassu que é pai de Felipe Camarão”, disse Jaguar.

Segundo documentos históricos e estudos do historiador Olavo de Medeiros Filho, o local e suas adjacências foram áreas habitadas pelos Potiguaras. “Então, saiu um acordo aqui de Potiguassu com Geraldo de Albuquerque. O primeiro acordo aqui em 1598 para construção da Fortaleza foi feito nesse lugar”, afirma.

A área da Gamboa, que anteriormente abrigava viveiros de camarão, passou por um processo de recuperação ambiental e deu lugar a um lago e a cinco hectares de manguezal, hoje habitat de diversas espécies de peixes, crustáceos e outros animais.

Em uma das etapas do percurso os visitantes chegam ao rio, onde participam de atividades de contato com a natureza e podem tomar banho em uma área cercada pela vegetação do manguezal.

Ao fim do percurso, as crianças chegam ao rio, onde antigamente funcionava uma fazenda de carcinicultura. Hoje, o local é utilizado para banho e atividades de contato com a natureza. A área também abriga uma região de manguezal preservada.

Atualmente, a reserva abriga mais de 70 espécies de árvores, entre elas pau-brasil, goiabeira e mutamba, além de cerca de 15 espécies de mamíferos, como guaxinins, raposas e cutias.

Abraçada pelas águas do Rio Jaguaribe, principal afluente do Potengi, a área passou por um processo de recuperação ambiental que transformou antigos viveiros de camarão desativados em um lago e cinco hectares de manguezal, hoje habitat de diversas espécies de peixes e crustáceos.

Para manter as atividades, a reserva conta com recursos obtidos por meio de editais culturais e, principalmente, das contribuições arrecadadas com as visitas realizadas no espaço.

As visitas à Gamboa do Jaguaribe costumam durar um turno inteiro. A programação inclui atividades nas ocas, onde são realizadas rodas de conversa sobre história, cultura indígena e meio ambiente. Em seguida, os visitantes percorrem uma trilha pela área reflorestada e conhecem o manguezal, encerrando o passeio.

Ao final do percurso, uma escultura de uma onça bebendo água chama a atenção dos visitantes e remete à origem do nome do local. “Gamboa significa lugar bom para ancorar e Jaguaribe, onça e água. É por isso que temos uma escultura da onça bebendo água”, revela Jaguar.

Para manter as atividades, a reserva da Gamboa conta com recursos obtidos por meio de editais culturais| Foto: Alex Régis

Ybytuguasu Potiguara, guia das visitas ao sítio, explica que a experiência vai além do contato com a natureza. “Para os que se consideram indígenas potiguara mesmo, e para aqueles que só moram no Rio Grande do Norte, que carregam esse nome, é uma visão totalmente diferente. Para nós que se declaramos indígenas, de contexto urbano, significa um espaço de força, sabe? De se reconectar com a nossa ancestralidade”, revela.

Segundo o guia, muitos visitantes chegam ao local com a expectativa de encontrar animais ao longo da trilha. “A gente gosta de destacar que aqui, por ser uma mata preservada, a gente não vai ver animais circulando normalmente. Se a gente der sorte, a gente consegue ver um macaco, um jabuti, uma cutia.”

Ao falar sobre a importância da preservação da cultura indígena, Ybytuguasu fala orgulhoso uma frase em tupi que, segundo ele, resume o propósito do projeto: “Nomanõi xué ne. Tupi oikobé auieramanhe ne”, expressão traduzida como “Tupi não morrerá. Tupi viverá para sempre”.

Reserva preserva biodiversidade

Além das ações de educação ambiental, o grupo realiza mutirões de limpeza e recolhe toneladas de resíduos que chegam pela maré.

Segundo os integrantes, parte significativa do lixo encontrado é formada por resíduos hospitalares, como seringas e embalagens de medicamentos que acabam chegando ao manguezal.

Ao longo da trilha, os visitantes encontram bancos identificados com nomes de animais da Mata Atlântica, como cobra potiguara, borboleta potiguara e cobra-coral. A homenagem faz referência à fauna que já habitou a região e ajuda a manter viva a memória dessas espécies.

O espaço também guarda lembranças de uma biodiversidade que já foi mais abundante. Segundo os integrantes do projeto, antigamente era possível avistar animais como mico-leão, araras e papagaios, espécies que deixaram de ser vistas na área nos últimos anos.

A Gamboa recebe, principalmente, grupos de crianças de escolas particulares, que participam de experiências voltadas ao contato direto com a natureza.

De acordo com Jaguar, o trabalho também envolve a desconstrução de percepções negativas sobre a natureza.

“É uma vivência que a gente faz com as crianças que chegam aqui elas começam a se conectar e andar sentir a terra conhecer as árvores tem todo um trabalho de desconstrução de mostrar o que é a natureza que não faz mal, que a mata é uma coisa sagrada”, revela.

Papel na educação

Durante as visitas agendadas, os participantes são recebidos com milho, beiju, amendoim e suco. Também conhecem o urucum, que é amassado e utilizado para pinturas corporais.

A proposta educativa da Gamboa vai além do contato com a natureza. O espaço também desenvolve ações culturais voltadas à formação ambiental e cidadã, como o CineOka, cineclube realizado desde 2017 e que já soma mais de 30 edições.

O projeto traz questões de preservação ambiental e indígenas do Nordeste, abordando etno-histórias, costumes e lendas por meio da exibição de filmes relacionados a esses temas. As exibições incluem ainda histórias de povos como Potiguara, Tupinambá e Xukuru, além de outras comunidades indígenas.

Segundo Ta’angahara, integrante do projeto, a iniciativa exibe produções com temáticas indígenas, ambientais e alimentares, acompanhadas de debates que estimulam reflexões sobre questões étnico-raciais e socioambientais. “O CineOka vem a ser uma janela do audiovisual, não somente do Rio Grande do Norte, mas também a nível nacional”, afirma.

Ele destaca que a pauta indígena ainda tem pouco espaço nas escolas e que há uma falta de visibilidade para a pluralidade de culturas no ambiente escolar do estado. “Aqui são provocados debates para uma reflexão de como o audiovisual e a indústria cultural podem contribuir para uma lucidez étnico-racial, socioambiental e também alimentar”, afirma.

A Gamboa também recebe feiras de economia criativa, rodas de capoeira, rodas de coco e exposições de artes visuais.

O espaço também abriga uma exposição de fotografias produzidas por indígenas no sítio histórico, reunindo registros que dialogam com a memória do local.

Além disso, o sítio conta com uma biblioteca ainda em fase de formação, que deve ampliar o acesso a materiais de estudo e pesquisa sobre temas ligados à cultura indígena, meio ambiente e saberes tradicionais.

A visitação ao espaço pode ser realizada mediante agendamento prévio pelo telefone 84 8838-0585.

Ananda Miranda/Repórter

Tribuna do Norte

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