Economia

“O desafio é reduzir a exposição da produção às variações climáticas no RN”, diz Arruda Júnior

“O desafio é reduzir a exposição da produção às variações climáticas no RN”, diz Arruda Júnior

“O desafio é reduzir a exposição da produção às variações climáticas no RN”, diz Arruda Júnior

O superintendente da Conab no RN considera a adaptação da produção às mudanças climáticas como o principal desafio do setor e destaca ações para fortalecer a segurança alimentar e ampliar o apoio à agricultura familiar. Foto: Divulgação/CONAB

A redução de 3,48% no preço da cesta básica em Natal durante o mês de junho trouxe alívio ao consumidor, mas ainda não é suficiente para reverter a alta acumulada dos alimentos ao longo do ano. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o superintendente regional da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Arruda Júnior, explica os fatores que influenciaram esse movimento, avalia as perspectivas para os preços até o fim de 2026 e comenta o cenário da produção agrícola no Rio Grande do Norte.

O dirigente também aborda os impactos das mudanças climáticas sobre o campo, as projeções para a safra de grãos, o funcionamento dos estoques públicos, além das prioridades da Conab para ampliar o apoio à agricultura familiar.

O preço da cesta básica em Natal caiu 3,48% em junho na comparação com maio, fechando em R$ 686,07, o quarto menor valor entre as capitais brasileiras. Essa redução tende a se manter nos próximos meses ou foi um movimento pontual? Quais fatores devem influenciar o comportamento dos preços até o fim do ano?

A redução observada em junho reflete, principalmente, um ajuste pontual decorrente do aumento da oferta de alguns alimentos importantes da cesta básica. O tomate foi destaque, com queda de 20,21%, impulsionada pela maior disponibilidade do produto durante a safra de inverno nas principais regiões produtoras, após as altas registradas nos meses anteriores. Além desse, mais quatro dos doze produtos apresentaram recuo em seus preços médios: manteiga (-2,06%), banana (-1,98%), óleo de soja (-1,23%) e açúcar cristal (-0,80%). Para os próximos meses, ainda não é possível afirmar que esse movimento de queda será mantido. A tendência é que os preços apresentem comportamento distinto entre os produtos da cesta básica. A evolução dos preços dependerá, sobretudo, das condições climáticas e de seus impactos sobre a produção agrícola, da oferta de alimentos como leite e derivados, da sazonalidade das principais culturas, além da evolução dos custos de transporte e logística.

Apesar da queda registrada em junho, a cesta básica acumula alta de 14,89% em 2026, a quarta maior do Nordeste. Quais produtos foram os principais responsáveis por esse aumento e o que explica esse desempenho acima da média da região?

O principal responsável pela alta acumulada da cesta básica em Natal em 2026 foi o tomate, que registra aumento de 90,36% no ano, seguido pelo feijão, com elevação de 42,45%. No caso do tomate, os preços subiram de forma consecutiva entre janeiro e maio, refletindo a menor oferta provocada pelas condições climáticas desfavoráveis e pelo período de entressafra, especialmente em abril. Já o aumento do preço do feijão decorreu, principalmente, da restrição na oferta, em razão das dificuldades enfrentadas durante a colheita e da redução da área cultivada na primeira safra. Como esses produtos possuem peso relevante na composição da cesta básica, suas fortes valorizações exerceram impacto significativo sobre o custo total dos alimentos. Embora os fatores que pressionaram os preços desses alimentos tenham sido observados em todo o país, diferenças nas condições de logística e formação de preços em cada mercado regional podem resultar em variações distintas entre as capitais.

Como o senhor avalia o cenário atual da produção agrícola no RN e quais são os principais desafios para os próximos anos?

A estimativa da Conab aponta para recuperação na produção de grãos em relação à safra passada. O 10º levantamento estima uma produção de 50,3 mil toneladas, crescimento de 63,3%. Esse aumento ocorre em função da melhor estimativa de produtividade, devido às melhores condições de chuva observadas durante parte do ciclo, principalmente quando comparadas às da safra anterior. Para os próximos anos, o desafio continua sendo reduzir a exposição da produção às variações climáticas, cultivando dentro do período recomendado, com incremento de tecnologias através de cultivares adaptadas, práticas de manejo e conservação da água no solo, a diversificação das culturas e o acompanhamento técnico das lavouras.

O aumento dos custos de produção continua sendo uma preocupação para o campo. Como a Conab acompanha essa evolução e quais cadeias produtivas têm enfrentado as maiores pressões?

A Conab realiza levantamentos de custos de produção em municípios representativos de diferentes regiões do país, com a participação de produtores, cooperativas, assistência técnica e demais agentes das cadeias produtivas. São considerados insumos, mão de obra, máquinas, combustíveis, energia, depreciação e capital empregado. Os preços desses componentes são atualizados periodicamente para retratar melhor as condições locais de produção. Atualmente, a Conab não possui planilhas específicas de custos de produção agrícola no Rio Grande do Norte. Por isso, não é possível, com base nesses levantamentos, indicar quais cadeias do estado enfrentam as maiores pressões.

Como funciona hoje a política de estoques públicos da Conab no RN? De que forma esses estoques contribuem para reduzir a volatilidade dos preços dos alimentos e apoiar pequenos produtores e criadores em momentos de dificuldade?

A política de estoques públicos da Conab integra as ações de apoio à segurança alimentar e ao abastecimento. Quando acionados, os estoques contribuem para amenizar oscilações de mercado, assegurar o suprimento em situações específicas e apoiar a execução das políticas públicas voltadas aos produtores rurais e à população. A Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) é uma importante ferramenta para diminuir oscilações na renda dos produtores rurais e assegurar uma remuneração mínima, atuando como balizadora da oferta de alimentos, incentivando ou desestimulando a produção e garantindo a regularidade do abastecimento nacional. A Conab efetiva a PGPM junto ao produtor rural, tendo sob sua responsabilidade a execução dos instrumentos desta Política. No Rio Grande do Norte, além dos estoques estratégicos nacionais administrados pela Conab, um instrumento muito importante é o Programa de Vendas em Balcão – ProVB, que disponibiliza milho dos estoques públicos para pequenos criadores com preços compatíveis aos custos de aquisição governamental. Esse programa tem papel fundamental, principalmente durante períodos de estiagem, garantindo alimentação para os rebanhos, reduzindo os custos dos pequenos produtores e fortalecendo a permanência da atividade pecuária no semiárido.

Está em tramitação no Congresso um projeto que amplia a formação de estoques públicos e autoriza a venda direta de produtos da Conab para pequenos mercados, cooperativas e indústrias. Qual é a avaliação da Conab sobre essa proposta e quais impactos ela pode trazer para o RN?

Aprovado na Câmara dos Deputados com proposta elaborada pela Conab, o PL 1.384/2011 prevê duas inovações centrais. A primeira permitirá a compra e a venda de outros componentes essenciais para a produção de ração, de modo a ampliar o leque de oferta disponível aos pequenos criadores de animais. A comercialização de mais produtos pelo ProVB, a preços praticados no mercado atacadista do Estado ou da Região de sua comercialização, será mais uma forma de fortalecimento da cadeia de carnes, leite e ovos do país. Outrossim, a redução de custos de aquisição desses insumos, por meio do programa, certamente contribuirá para o decréscimo de preços de alimentos fontes de proteína animal nos mercados voltados para o consumidor final. Ademais, a ampliação do rol de produtos comercializados permitirá uma maior diversificação na alimentação do plantel de animais dos pequenos criadores, contribuindo para uma melhora qualitativa de sua produção. A inclusão de cooperativas e associações de agricultores familiares concorrerá para o fortalecimento do associativismo e do cooperativismo, permitindo que pequenos criadores associados ou cooperados possam, por meio das respectivas entidades, também acessar o Programa, desde que observadas as condicionantes previstas na Lei. Ademais, prevê-se a aquisição pela União, por intermédio da Conab, junto a produtores rurais e de suas cooperativas de produção, de produtos básicos constantes da pauta da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), por preço de até 25% acima do respectivo Preço Mínimo vigente, na Unidade da Federação em que for realizada a aquisição, para o alcance das finalidades previstas no caput do artigo; e prevendo a possibilidade de realização de leilões públicos para as aquisições mencionadas.

Os levantamentos de safra da Conab apontam quais projeções para as principais culturas do estado em 2026? Há expectativa de crescimento ou preocupação em alguma cadeia produtiva?

A safra continua em campo. Milho e feijão são as duas principais culturas do estado e, de uma maneira geral, os cultivos foram favorecidos pela regularização das chuvas após um início de estação mais irregular. Entretanto, os resultados ainda dependem da distribuição das precipitações durante as fases de maior demanda hídrica e da consolidação das informações de colheita.

Como a Conab tem atuado na operacionalização do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) no RN? Há previsão de ampliação dos recursos ou do número de agricultores beneficiados?

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) vive um momento bastante positivo no RN. A Conab tem ampliado sua atuação tanto no número de projetos quanto no volume de recursos executados, fortalecendo a agricultura familiar e ampliando o acesso da população em situação de vulnerabilidade a alimentos de qualidade. Em 2025, a Companhia realizou um amplo trabalho de capacitação em todos os territórios rurais do estado, qualificando mais de 500 pessoas para a elaboração de propostas ao programa. Como resultado, foram apresentadas mais de 200 propostas, totalizando uma demanda superior a R$ 46 milhões, o que permitiu ampliar significativamente a presença do PAA em todas as regiões do Rio Grande do Norte, do Alto Oeste ao Litoral. Atualmente, a Conab opera no estado todas as principais modalidades do programa, incluindo Compra com Doação Simultânea (CDS), Compra Direta, PAA Sementes e o atendimento às Cozinhas Solidárias. Essas ações garantem a comercialização da produção da agricultura familiar, geram emprego e renda no campo e contribuem diretamente para o combate à insegurança alimentar por meio da doação de alimentos. A expectativa é manter a expansão da execução do PAA no Rio Grande do Norte, sempre em consonância com a disponibilidade orçamentária do Governo Federal. A prioridade é ampliar o número de agricultores familiares beneficiados e fortalecer as políticas públicas de segurança alimentar e nutricional no estado.

O semiárido convive com eventos climáticos extremos, alternando secas e chuvas intensas. Como a Conab se prepara para minimizar os impactos dessas oscilações sobre o abastecimento e a produção?

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) desempenha papel estratégico na resposta às emergências climáticas, atuando na proteção da segurança alimentar e do abastecimento da população. Como integrante do Sistema Federal de Proteção e Defesa Civil, a Companhia contribui para a gestão de desastres por meio do monitoramento, da gestão de estoques públicos e da execução de políticas de abastecimento. Entre suas principais iniciativas destaca-se a Ação de Distribuição de Alimentos (ADA), regulamentada pela Portaria nº 1.023/2024, que estabelece os procedimentos para o atendimento a municípios em situação de emergência ou estado de calamidade pública, bem como a povos e comunidades tradicionais e outros grupos populacionais específicos, mediante solicitação dos órgãos competentes. No contexto das ações de resposta, a Conab disponibiliza sua infraestrutura de armazenagem, equipe técnica e capacidade logística para o recebimento, armazenamento e distribuição de alimentos e outros insumos essenciais. A atuação da Companhia ocorre de forma articulada com os órgãos federais, estaduais e municipais responsáveis pela proteção e defesa civil, contribuindo para que a assistência humanitária alcance, com agilidade e eficiência, as populações afetadas por eventos climáticos extremos, como enchentes, estiagens e outros desastres. Complementarmente, o Programa de Venda em Balcão (ProVB) constitui um importante instrumento de mitigação dos impactos das emergências climáticas sobre a agricultura familiar e a pecuária de pequeno porte. Ao assegurar o acesso ao milho em condições compatíveis com o mercado atacadista, o programa contribui para a manutenção da alimentação animal durante períodos de escassez de pastagens e forragens, reduzindo os prejuízos decorrentes da estiagem. Além de preservar os rebanhos e evitar a interrupção das atividades produtivas, o ProVB fortalece a resiliência das cadeias produtivas locais frente às mudanças climáticas, reduz a vulnerabilidade econômica dos pequenos produtores, contribui para a manutenção da oferta de alimentos de origem animal e favorece a permanência das famílias no campo. Dessa forma, aliado às ações de distribuição de alimentos e ao apoio logístico prestado pela Conab, o Programa reforça a capacidade do Estado brasileiro de responder aos efeitos das mudanças climáticas, promovendo segurança alimentar, abastecimento e desenvolvimento sustentável nas regiões mais vulneráveis. Atualmente, a Companhia elaborou um Plano de Enfrentamento aos efeitos do El Niño, que prevê a ampliação de aquisições do milho para o ProVB de forma preventiva. A iniciativa busca antecipar os impactos esperados sobre a oferta de milho, assegurando maior capacidade de atendimento aos pequenos criadores, com a possível confirmação dos cenários climáticos adversos. Dessa forma, a aquisição governamental representa uma medida estratégica de segurança alimentar para os rebanhos, de sustentação da produção pecuária e de fortalecimento da capacidade de resposta diante dos efeitos de eventos climáticos extremos. A Conab realiza o monitoramento agrometeorológico dos principais estados produtores, principalmente, analisando os possíveis impactos nas lavouras com base na identificação de áreas cultivadas, por sensoriamento remoto ou pesquisas de campo, e nas previsões climáticas e nos dados meteorológicos observados, principalmente, de precipitação e temperatura. As análises parciais auxiliam na consolidação dos dados levantados junto aos agentes colaboradores para obter as estimativas de safra do estado. Toda a informação é disponibilizada a público por meio dos relatórios semanais no site da Companhia. O compromisso da Conab é disponibilizar ao público os valores de área, produtividade e produção, sem possuir qualquer relação com o resultado obtido.

Quais são as prioridades da Conab no Rio Grande do Norte para o segundo semestre de 2026? Há previsão de novos investimentos, ampliação de programas ou projetos estratégicos para o Estado?

Nossa prioridade é ampliar ainda mais o alcance das políticas públicas executadas pela Conab no Rio Grande do Norte. Pretendemos fortalecer a operacionalização do Programa de Aquisição de Alimentos, expandir o atendimento do Programa de Vendas em Balcão, inclusive por meio de novas estratégias de descentralização da distribuição de milho, além de intensificar a presença institucional da Companhia nos municípios por meio do projeto Conab Itinerante e da participação em eventos voltados à agricultura familiar. Também seguimos trabalhando para fortalecer a estrutura operacional da Superintendência Regional, modernizar nossas unidades armazenadoras e ampliar o acesso dos agricultores familiares aos instrumentos de comercialização oferecidos pela Conab. Nosso objetivo é aproximar cada vez mais a Companhia do produtor rural, garantindo que as políticas públicas cheguem de forma eficiente aos municípios e contribuam para o desenvolvimento da agricultura, da segurança alimentar e do abastecimento no Rio Grande do Norte.

QUEM

Sebastião José de Arruda Júnior é engenheiro agrônomo, especialista em Agronegócio e mestrando em Extensão Rural. Atua na Conab há 18 anos, sendo 12 deles em cargos de gestão e, nos últimos três anos, como Superintendente Regional no RN, onde coordena ações voltadas ao abastecimento alimentar, à agricultura familiar e à execução de políticas públicas no estado.

Tribuna do Norte

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