Projeto da UFRN transforma resíduos da indústria salineira em combustível

Projeto da UFRN transforma resíduos da indústria salineira em combustível
A cada litro de efluente, dá para produzir 1,5 litro de hidrogênio e 600 mg/L de hipoclorito| Foto: Adriano Abreu
O projeto HYDROSALT transforma resíduos da indústria salineira em hidrogênio verde e hipoclorito (água sanitária), visando mitigar os impactos ambientais do descarte desses materiais e aproveitá-los para criar produtos de valor agregado. A pesquisa é da engenheira química Ana Eduarda Cavalcanti Bertoldo, aluna do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Atualmente em fase de prospecção e com patente já conquistada, o projeto foi aprovado no Programa Vértice, voltado à transformação de pesquisas acadêmicas em negócios e soluções tecnológicas para o Semiárido brasileiro. Segundo a pesquisadora, a ideia é aumentar a escalabilidade do projeto para que ele atenda a fins industriais, com possibilidade de aplicação em diversos segmentos econômicos.
Ana eduarda, Elizama Vieira e Carlos Alberto Martinez na UFRN| Foto: Adriano Abreu
O projeto “HYDROSALT: Tecnologia Eletroquímica Integrada para Valorização de Rejeitos Salinos em Hidrogênio Verde e Hipoclorito” foi desenvolvido no Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (LEAA). A iniciativa foi aprovada no Programa Vértice no início de julho e recebe mentoria, apoio institucional e ajuda financeira – um desafio para a escalabilidade da pesquisa – do programa.
“Como toda tecnologia de base científica, o principal desafio é avançar da validação em laboratório para a aplicação em ambiente industrial. Isso envolve otimizar o sistema, ampliar sua escala, realizar mais testes em condições reais de operação e fortalecer a proteção intelectual da tecnologia. Também é fundamental contar com investimentos e parcerias estratégicas”, diz Ana Eduarda Bertoldo.
O LEAA/UFRN tem outras iniciativas voltadas à produção de hidrogênio verde, um combustível alternativo que vem sendo adotado no âmbito da transição energética. Na prática, o hidrogênio verde é obtido a partir da eletrólise da água, um processo eletroquímico que usa corrente elétrica para separar o hidrogênio do oxigênio. Para ser considerado “verde”, a eletricidade usada deve vir de fontes renováveis.
“Usamos rejeitos da indústria salineira, que normalmente seriam descartados, como matéria-prima em um processo eletroquímico”, explica a pesquisadora. O primeiro produto da transformação (o hipoclorito) é usado na desinfecção de água e em processos industriais, e o segundo é considerado um combustível limpo com grande potencial para a transição energética.
Ana Eduarda| Foto: Adriano Abreu
A matéria-prima é uma água residual. “Em vez de ser uma água potável, é um efluente, que é um problema ambiental. Essa água com alto teor de sal não é utilizável, então ela seria rejeitada. Em vez de a gente jogá-la para o meio ambiente, a gente está reaproveitando”, diz a professora Elisama Vieira dos Santos, uma das coordenadoras do LEAA/UFRN e orientadora do projeto.
Segundo ela, a cada litro de efluente, é possível produzir 1,5 litro de hidrogênio e cerca de 600 mg/L de hipoclorito de sódio. Além disso, a professora afirma que o projeto evita usar água potável, considerando o contexto de escassez hídrica do Semiárido potiguar.
O projeto atua em duas frentes. “A primeira é reduzir o impacto ambiental causado pelo descarte inadequado de rejeitos salinos, que podem afetar ambientalmente ecossistemas – por exemplo, influenciar a fotossíntese, limitar a reprodução de peixes e alterar a flora aquática – e representar um passivo para a indústria”, diz Ana Eduarda Bertoldo. A segunda é contribuir para a descarbonização da matriz energética.
Para Elisama Vieira, o apoio de um programa que visa transformar pesquisa em negócio reforça o ambiente de negócios tecnológicos que vem sendo fortalecido na UFRN e no LEAA. “Inclusive, hoje temos uma startup que está atrelada a essa temática, que visa à produção de materiais voltados à transição energética, dando ênfase à produção de hidrogênio e baterias de sódio”, afirma.
Tribuna do Norte