Projeto potiguar quer levar cadeirantes à praia

Projeto potiguar quer levar cadeirantes à praia
O acesso é feito por rampa automatizada, que permite o embarque da pessoa com deficiência sem auxílio de terceiros| Foto: Magnus Nascimento
Transformar as praias em espaços mais acessíveis para usuários de cadeira de rodas é o objetivo do projeto Crab, desenvolvido por pesquisadores do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). O veículo elétrico, que utiliza energia solar, passa por uma nova fase de aperfeiçoamento enquanto os idealizadores buscam instituições parceiras para colocar o projeto em prática.
Em uma cidade onde o sol e o mar fazem parte da rotina, chegar à areia ainda é um desafio para muitas pessoas com deficiência. “No momento em que você vai a uma praia e não vê pessoas com deficiência frequentando, alguma coisa de errado tem. A necessidade desse tipo de acessibilidade é muito grande”, afirma Iago Souza, idealizador do Crab e ex-aluno de Eletrônica no IFRN.
O acesso ao veículo é feito por uma rampa automatizada, que permite o embarque da pessoa com deficiência sem auxílio de terceiros. Depois de posicionada no equipamento, ela controla o deslocamento por meio de um comando, enquanto sensores de segurança detectam obstáculos e interrompem o veículo quando necessário.
O protótipo é equipado com placas solares que auxiliam no fornecimento de energia ao sistema, mas não dispensam o carregamento convencional.
Dentro do equipamento existem baterias que precisam ser recarregadas em uma tomada e a energia captada pelos painéis solares aumenta a autonomia do veículo, prolongando o tempo de uso entre uma recarga e outra.
Desenvolvido desde 2014, o projeto está em uma nova fase de aperfeiçoamento do protótipo. A versão atual traz avanços em relação ao modelo anterior, com uma estrutura mais leve e a adoção de baterias da mesma tecnologia utilizada em carros elétricos.
A parte mecânica do Crab (que significa caranguejo em inglês) reúne a carroceria, os motores e os pneus projetados para trafegar na areia. Já o sistema elétrico integra os módulos fotovoltaicos, as baterias e os equipamentos responsáveis por armazenar e distribuir a energia para movimentar o veículo.
Para o professor Arthur Salgado, um dos coordenadores do projeto, a proposta não é que o veículo entre no mar, mas que permita às pessoas que utilizam cadeira de rodas chegar com autonomia à faixa de areia próxima ao mar e circular pela praia sem depender de ajuda de terceiros.
“A ideia do projeto é exatamente essa: quebrar barreiras e dar oportunidade para que pessoas que utilizam cadeira de rodas possam ter acesso a esse lazer, que hoje não é proporcionado da forma como as nossas praias são organizadas”, afirma Salgado.
Os pesquisadores começaram a desenvolver essa tecnologia em 2014, durante uma iniciativa de pesquisa desenvolvida por alunos do IFRN. Inicialmente, o objetivo era criar um veículo que utilizasse energia solar, tecnologia que começava a ganhar espaço no país.
Segundo Iago Souza, a proposta ganhou um novo direcionamento depois que um estudante com deficiência relatou as dificuldades enfrentadas para se locomover em terrenos arenosos e frequentar as praias. “Então juntamos o útil ao agradável: pegamos a ideia do veículo e fizemos uma adaptação voltada para as pessoas com deficiência”, conta.
Embora tenha sido desenvolvido para ampliar a acessibilidade nas praias, o veículo também pode ser utilizado em outros terrenos de difícil locomoção, como trilhas, áreas de areia, lama ou caminhos irregulares.
Desenvolvedores buscam parcerias
Para que o projeto chegue à população, os pesquisadores buscam uma instituição pública, uma empresa ou uma organização sem fins lucrativos que assuma a operação do veículo e o disponibilize gratuitamente para empréstimo às pessoas com deficiência.
Segundo João Teixeira, também coordenador do projeto, a proposta não é comercializar o equipamento, mas criar um serviço que amplie a acessibilidade nas praias. “A ideia não é que cada pessoa tenha um veículo. O que queremos é que eles fiquem disponíveis para empréstimo, para que qualquer pessoa com deficiência possa utilizá-los e aproveitar a praia, um espaço onde muitas vezes ela não consegue chegar por causa das limitações da cadeira de rodas”, destaca Teixeira.
Para Arthur Salgado, o potencial do projeto vai além das praias potiguares. Segundo ele, a falta de acessibilidade é uma realidade compartilhada por diversos municípios litorâneos. “A nossa ideia é que isso seja expandido nacionalmente, quem sabe até internacionalmente”, afirma.
O desenvolvimento do Crab é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e a tecnologia já foi patenteada pelo IFRN, que detém a propriedade intelectual do projeto.
Tribuna do Norte