RN tem cada vez mais centenários; conheça o que leva à longevidade

RN tem cada vez mais centenários; conheça o que leva à longevidade
Com uma alegria de viver e 101 anos recém-completados, Ruth Ximenes faz da gratidão e da fé os principais combustíveis| Foto: Alex Régis
Chegar aos 100 anos é uma conquista que reúne longevidade, mas também desafios impostos, muitas vezes, pela idade e transformações no mundo ao longo de um século. Aprender a lidar com as perdas também está entre as adversidades que têm de ser superadas. É neste contexto que estão cada vez mais potiguares. Os dados do último Censo do IBGE mostram que, em dez anos, o número de centenários no RN cresceu 39,4%, saindo de 700 pessoas com 100 anos ou mais em 2012 para 976 em 2022. Com uma alegria de viver infinita e 101 anos recém-completados, Ruth Ximenes Hackradt faz da gratidão e da fé os principais combustíveis para a vida.
Nascida em Assú, Ruth veio para Natal aos 10 anos, onde casou e teve quatro filhos. Como filosofia, ela adotou a simplicidade. “Não faço nada de extraordinário. Gosto da vida, de rezar, de cantar e de dançar”, conta enquanto liga o rádio para mostrar as canções que já gravou: As Rosas Não Falam (Cartola), Amor I Love You e Ainda Bem (Marisa Monte) e Como É Grande o Meu Amor por Você (Roberto Carlos). “Não tenho um cantor favorito. Canto as músicas que eu gosto”, diz ela, que já foi aplaudida em um restaurante de São Paulo depois que pediu para fazer uma apresentação musical.
Vaidosa [ela foi ao cabeleireiro antes de receber a reportagem], Ruth Ximenes Hackradt fala que outra grande paixão é viajar, embora seja apegada mesmo ao lugar onde vive há 80 anos, uma casa confortável no bairro de Petrópolis, na zona Leste de Natal. Ao ser questionada sobre qual o momento mais feliz da vida, a resposta é abrangente. “Não existe um único momento, porque minha vida é sempre muito cheia de alegria”. Mas ao ser perguntada qual o momento mais difícil, ela se emociona ao relatar a perda do filho mais velho, há sete anos.
“Fazia três dias que ele, ao contrário do que fazia rotineiramente, não me ligava nem vinha à minha casa. Fui ao apartamento de Werner e o encontrei morto em um dos quartos. Saí chorando e fiz um pedido a Deus: ‘Senhor, me dê a graça de suportar essa dor. Dele, tenho inúmeras boas lembranças, mas uma em especial. Uma vez, eu estava me apresentando com meu clube da melhor idade no Teatro Alberto Maranhão, morrendo de medo, porque eu cantava sentada em um balanço, e uma voz gritou: ‘Bota pra torar, craúna’. Era ele”, relata, entre risos.
Ruth tem mais três filhos, além de netos e bisnetos com quem desfruta de uma relação de afetividade intensa. O hábito de ir ao baile da AABB toda primeira sexta-feira do mês e de servir à Igreja como ministra da Eucaristia ajudam a manter a longevidade. Para Maria Luiza, de 100 anos, observar o mundo com otimismo, mesmo com os desafios diários, é um modo de seguir bem na trajetória cotidiana.
Para Maria Luiza, de 100 anos, observar o mundo com otimismo, mesmo com os desafios diários, é um modo de seguir bem na trajetória
cotidiana| Foto: Alex Régis
Ela conta que é paraibana, mas veio morar no RN logo depois que passou a conviver com o companheiro, na juventude. A saída da casa dos pais foi a coisa mais feliz e mais difícil que aconteceu na vida dela, segundo confessa. “Sou de Serra de Cuité (PB). Lá, conheci meu marido, que é de Jardim do Seridó, no RN. Minha mãe não queria o casamento, então, fugi com ele. Foi difícil, mas ao mesmo tempo, muito feliz, porque ele foi bom para mim”, relata Maria Luiza, que vive em uma instituição de longa permanência para idosos (CIADE), no Planalto, bairro da zona Leste de Natal.
Maria Luiza conta que passou a viver no local por conta das dificuldades do filho em cuidar dela, já que ele está com problemas de saúde, mas confessa que ainda sonha em voltar para casa e em voltar a costurar, profissão que exerceu durante toda a vida. “Aqui no lar não é ruim, mas nada como a casa da gente. E se eu pudesse escolher fazer algo, eu escolheria aquilo que eu sempre fiz: costurar”, revela.
Cuidados com a saúde física e mental
Chegar aos 100 anos de idade ainda é um feito que a maioria da população mundial não consegue alcançar, mas para chegar lá é preciso, entre outros aspectos, uma combinação de fatores. A médica geriatra Luana Macedo, do Hospital Universitário Onofre Lopes, explica que essa combinação envolve genética, hábitos de vida, ambiente, condições socioeconômicas e, principalmente, a forma como as doenças crônicas foram controladas ao longo da vida. “Não existe um único ‘gene da longevidade’”, afirma.
“A genética provavelmente tem um papel importante, especialmente nos chamados longevos excepcionais, mas ela não explica tudo. Muitos centenários apresentam uma característica interessante: eles conseguem adiar ou escapar de algumas das doenças que mais comprometem o envelhecimento, como doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e demências”, esclarece Luana Macedo, ao ressaltar a importância de chegar a essa faixa etária com autonomia.
Aqui, a médica chama atenção para um ponto: não é possível começar a construir autonomia aos 100 anos. Esta é uma construção que deve ser iniciada décadas antes.
Nesse processo, alguns pilares são fundamentais, de acordo com a geriatra. Entre eles estão a prática de atividade física, especialmente os exercícios de força e equilíbrio; alimentação adequada, com atenção especial à ingestão de proteínas; prevenção e tratamento adequado das doenças crônicas; e manutenção da vida social, cognitiva e dos vínculos afetivos. Também é necessário evitar o consumo de substâncias tóxicas, como álcool e tabaco, cuidar da qualidade do sono e controlar o estresse.
“Autonomia depende principalmente da preservação da capacidade funcional: conseguir caminhar, levantar de uma cadeira, tomar banho, se alimentar, administrar a própria vida e tomar decisões. Eu costumo dizer que o melhor investimento para chegar bem aos 100 anos é cuidar dos músculos, do cérebro e das relações sociais muito antes dos 100”, afirma Luana Macedo. Os cuidados são fundamentais, de acordo com a médica, para enfrentar os desafios dessa fase. A perda progressiva de reserva funcional está entre as principais dificuldades para os centenários.
“Com o envelhecimento, podemos perder massa e força muscular, equilíbrio, capacidade cardiorrespiratória e densidade óssea. Isso aumenta o risco de quedas, fraturas e perda de independência”, diz a médica. Outro cuidado igualmente importante diz respeito à saúde mental. O psicólogo João Costa afirma que esta é uma faixa etária que exige atenção, mas isso não implica dizer que chegar aos 100 anos seja, por definição, um problema psicológico.
“O problema está, muitas vezes, no que se acumula ao redor dessa pessoa: luto, doenças crônicas, solidão, dificuldades financeiras, violência, abandono e etarismo. Saúde mental também tem a ver com propósito de vida. E propósito, nesta fase, tem a ver com querer estar presente no aniversário de alguém, cuidar de uma planta, continuar acompanhando futebol, rezar, escolher o almoço de domingo ou ver um neto concluir a faculdade”, discorre João Costa, que é presidente do Conselho Regional de Psicologia do RN (CRP-17).
Políticas públicas
De acordo com dados do Censo de 2022, as mulheres representam 69,5% dos centenários do Rio Grande do Norte (a contagem aponta 679 mulheres centenárias e 297 homens). O professor Ricardo Ojima, doutor em Demografia, explica que o cenário ocorre porque os homens, na idade jovem ou adulta, se expõem mais a riscos relacionados à violência.
“Já as mulheres têm um comportamento mais direcionado a cuidar da saúde, com acompanhamento médico regular. Portanto, é natural que, na pirâmide etária – a partir dos 80 anos – fique mais expressiva a diferença na quantidade de homens e mulheres em uma população como a nossa, que segue a tendência do Nordeste e do Brasil”, argumenta Ricardo Ojima, que é professor da UFRN.
Mais do que compreender por que as mulheres são maioria entre a população centenária do estado, os números ajudam a estabelecer a implementação de políticas públicas para essa faixa. “Indicadores sobre os grupos etários são fundamentais para a orientação ou reorientação de políticas. No caso dos centenários, o conhecimento de quantas são, como e onde vivem essas pessoas possibilita que a sociedade, o poder público e o mercado direcionem esforços para garantir a longevidade com qualidade de vida”, aponta Damião Ernane, chefe da Seção de Disseminação de Informações do IBGE no RN.
Ricardo Ojima indica que as políticas devem considerar o acompanhamento em saúde e questões assistenciais. “Há uma tendência, com o envelhecimento, de uma demanda por cuidados específicos para que as pessoas consigam realizar as próprias tarefas, então, é primordial que as políticas públicas acompanhem esses desafios. Quando a gente pensa em Natal, por exemplo, estamos falando em condições de mobilidade urbana, infraestrutura e serviços que atendam a essa demanda”, frisa o professor.
Ele aponta que existe outro desafio: os cuidados com a pessoa idosa, sempre atrelados à família, que está cada vez menos numerosa. “Assim, os idosos do futuro terão um volume menor de pessoas com disponibilidade para cuidar deles. Apesar disso, é sempre bom lembrar: viver mais não é um problema. É, na verdade, uma conquista”, aponta Ricardo Ojima.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte