Sabe o que é “farmar aura”? Moda conquista adolescentes no Estado

Sabe o que é “farmar aura”? Moda conquista adolescentes no Estado
“Farmar aura” é uma expressão que surgiu a partir da linguagem dos videogames. Foto: Magnus Nascimento
O que começou como uma brincadeira nas redes sociais acabou reunindo cerca de 300 pessoas em uma praça de Extremoz. A competição de “farmar aura”, expressão que viralizou entre adolescentes, ilustra como tendências digitais estão migrando para o mundo real. Especialistas avaliam que o “farmar aura” reflete tanto a necessidade de pertencimento quanto a influência das plataformas digitais na forma como os jovens constroem suas identidades e se relacionam.
Tudo começou com uma brincadeira nas redes sociais. Inspirados por vídeos de “farmar aura” que viralizavam na internet, os organizadores do campeonato publicaram uma postagem anunciando uma competição informal em Extremoz, como forma de brincadeira.
Administrador da página de humor Resenhas de Extremoz, o influenciador Rutenilton Santos publicou, em tom de brincadeira, um anúncio de um campeonato de ‘farmar aura’. “Esse ‘farmar aura’ está no Brasil todo. A gente começou a ver esses vídeos, a galera fazendo, e fez uma brincadeira num post. (O prêmio) era valendo um bode, só uma resenha”, conta o influenciador e organizador do evento.
A postagem viralizou e os seguidores passaram a cobrar a realização da disputa. O que era para ser uma simples brincadeira acabou reunindo cerca de 300 pessoas na praça da cidade e, em vez do bode prometido inicialmente, o vencedor ganhou R$ 300,00.
Na disputa, os participantes realizam movimentos, poses, danças e encenações para conquistar a reação do público, que decide o vencedor com gritos e aplausos. “A outra pessoa tem que fazer melhor do que ele. Se a galera se animar mais com você, o outro vai perdendo a aura”, explica Santos.
Animado com a repercussão, o organizador já imagina a possibilidade de promover disputas entre vencedores de diferentes cidades. “Se o negócio fluir para frente, a ideia é reunir campeões de vários municípios”, afirma, sorrindo.
Para Santos, o fenômeno também tem um aspecto positivo ao estimular a interação social e o entretenimento entre os jovens. Na avaliação dele, conteúdos como o “farmar aura” funcionam como uma forma de diversão e descontração em meio à rotina. “Ajuda as pessoas que estão em casa, muitas vezes passando por uma doença emocional, passou o dia sem rir naquele vídeo ali, começou a rir”, opina o influenciador.
O vencedor do campeonato foi um adolescente, que conquistou o público apostando em muita dança e criatividade durante a disputa.
Nos vídeos publicados nas redes sociais, é possível perceber que, para “farmar aura”, vale quase tudo: se jogar no chão, pular, dar mortais, gritar e improvisar encenações. Os tradicionais movimentos com as mãos, considerados uma das marcas da tendência, também não podem faltar.
A maioria das pessoas que entram na trend são adolescentes e crianças, mas não há idade certa para entrar na brincadeira. O gari Marcone Serafim, de 28 anos, entrou na moda, mas acabou “perdendo aura” para uma criança que animou mais o público no campeonato. “Rapaz, pra mim não deu certo não”, diz enquanto faz o movimento de farmar aura com as mãos.
Busca por aprovação
A psicóloga de crianças e adolescentes Ana Lívia Queiroz avalia que a popularidade do “farmar aura” está relacionada a um processo natural do desenvolvimento dos jovens, marcado pela busca por pertencimento e reconhecimento social.
Para a especialista, fenômenos virais como o “farmar aura” funcionam como uma forma de integração entre os jovens. “O indivíduo busca sempre esse reconhecimento, de pertencer a um grupo, a uma comunidade”, explica. Nesse sentido, a reprodução de tendências nas redes sociais pode representar uma maneira de participar de espaços coletivos.
Queiroz ressalta, porém, que é importante observar as motivações por trás desse comportamento. De acordo com ela, há diferença entre utilizar as plataformas digitais como um espaço de criatividade e buscar exclusivamente aprovação externa por meio de curtidas, comentários e visualizações.
A psicóloga alerta que a dependência da validação das redes sociais pode trazer impactos negativos para a autoestima e a autoconfiança dos adolescentes. “A gente precisa estar atento ao que a criança ou adolescente está querendo através desse compartilhamento da sua imagem”, defende.
Segundo ela, quando a construção da identidade passa a depender do engajamento obtido em publicações, frustrações relacionadas à falta de repercussão podem gerar insegurança, comparação constante e ansiedade.
Apesar dos riscos, a especialista destaca que “farmar aura” também pode ter aspectos positivos.
Desafios e brincadeiras compartilhados na internet frequentemente funcionam como instrumentos de socialização, aproximando pessoas que talvez não interagissem em outras circunstâncias. “Quando a gente olha para esse lado, como pessoas que geralmente não costumam interagir e acabam se aproximando por um objetivo em comum, isso pode ser muito positivo”, afirma.
Para Ana Lívia, a tendência deve seguir o ciclo comum das redes sociais e, eventualmente, ser substituída por novas modas e expressões juvenis. No entanto, ela acredita que a necessidade de pertencimento e reconhecimento continuará presente entre os adolescentes, ainda que se manifeste por meio de outras linguagens e fenômenos digitais.
Novas formas de expressão entre jovens
O professor da UERN de Mossoró, especialista em educação física e expressão artística, Felipe Rocha avalia que a popularidade dos campeonatos de “farmar aura” demonstra novas formas de expressão entre os jovens.
Segundo Rocha, “farmar aura” se insere em uma tendência mais ampla de criação de linguagens e formas de expressão próprias da juventude.
“Revela uma geração que transita continuamente entre os ambientes digitais e presenciais, cria vocabulários próprios, transforma referências das redes em experiências corporais e coletivas e busca reconhecimento e pertencimento por meio da performance”, informa.
O professor destaca que, mesmo em uma realidade marcada pelas tecnologias digitais, o corpo continua sendo um dos principais meios de comunicação e expressão dos jovens. O especialista também identifica semelhanças entre as disputas de “farmar aura” e outras manifestações corporais e artísticas, como batalhas de breaking e práticas ligadas à dança contemporânea.
De acordo com ele, os participantes compartilham códigos próprios de movimento e expressão que podem causar estranhamento para quem está fora desse universo, mas que possuem significados claros dentro da comunidade juvenil. “O gesto nunca é vazio. Ele é tecido culturalmente e adquire significado nas relações entre aqueles que compartilham determinados códigos”, afirma.
Rocha pondera que é difícil prever se os campeonatos continuarão populares. “Mesmo que esses campeonatos deixem de existir, provavelmente oferecerão elementos para o surgimento de outras práticas culturais”, destaca.
Apesar da liberdade de expressão, o professor alerta os pais para que fiquem atentos aos comportamentos dos filhos. “Precisamos ajudar os jovens a compreender que reconhecimento não é o mesmo que valor pessoal e que existir não pode significar estar permanentemente performando para o olhar e a aprovação do outro”, disse o educador.
O que é farmar aura
“Farmar aura” é uma expressão que surgiu a partir da linguagem dos videogames e foi incorporada ao vocabulário das redes sociais. O termo é utilizado para descrever situações em que uma pessoa conquista admiração, reconhecimento ou destaque por meio de atitudes consideradas estilosas.
A expressão reúne duas ideias. “Farmar” vem do universo dos jogos eletrônicos e significa acumular recursos ou pontos para evoluir dentro de uma partida. Já “aura” faz referência à imagem, presença ou capacidade de chamar atenção. Juntas, as palavras passaram a representar a busca por momentos que aumentem o prestígio de alguém diante de um grupo.
Na prática, é comum dizer que uma pessoa “farmou aura” após realizar uma ação que impressiona os outros, como fazer uma brincadeira engraçada, demonstrar habilidade em uma dança, executar uma manobra ou protagonizar uma situação que desperte admiração. Da mesma forma, situações consideradas constrangedoras podem resultar na chamada “perda de aura”.
Tribuna do Norte