UERN lança tour guiado por vestígios do antigo “Caldeirão do Diabo”

UERN lança tour guiado por vestígios do antigo “Caldeirão do Diabo”
Restam estruturas como paredes das galerias de celas que ainda guardam inscrições feitas por detentos. Foto: Adriano Abreu
Onde havia uma penitenciária marcada por rebeliões violentas, superlotação e criminosos famosos, hoje há uma universidade. O campus Natal da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) é sediado no mesmo terreno da antiga Penitenciária João Chaves, conhecida como “Caldeirão do Diabo”.
Resgatando a memória dessa transição entre presídio e instituição de ensino, a professora Jarileide Nasi lançou nesta terça-feira (27) um tour guiado pelos vestígios do espaço. O roteiro turístico e histórico foi inicialmente apresentado à imprensa.
Restam da época da penitenciária estruturas como paredes das galerias de celas que ainda guardam inscrições feitas por detentos, guaritas de vigilância e a caixa d’água original. O tour guiado será apresentado ainda durante o Congresso Interdisciplinar da Uern (COIN 2026), que inicia nesta quarta-feira (28).
Para Jarileide Nasi, docente do Departamento de Turismo da Uern, o lançamento do projeto representa algo ainda mais especial. Quarenta anos depois de sair baleado da Penitenciária João Chaves – em 26 de janeiro de 1986 –, o segundo-tenente reformado da Polícia Militar Pedro Paulo da Silva, pai da pesquisadora, voltou ao local onde quase morreu.
Aos 83 anos, ele conheceu o resultado do trabalho da filha, que pesquisa a história da penitenciária há 10 anos. Emocionado, ele conversou com a imprensa na Uern, onde se recusava a passar devido à lembrança do episódio em que foi feito refém e atingido por um disparo de arma de fogo. O tiro provocou nove perfurações em seu intestino. Ele sobreviveu e passou a reforma naquele mesmo ano.
“É difícil, depois de 40 anos e oito meses completos, voltar a ver uma estrutura dessa tão bonita, tão bem feita, construída com muito amor, num local que nunca passou pela cabeça de ninguém que seria transformado”, disse. Questionado sobre a sua última lembrança do lugar, ele relata que pedia socorro próximo à entrada da penitenciária. Ele comandava o policiamento interno do presídio.
Jarileide Nasi ouvia essa história desde criança e, quando descobriu a aprovação para ser professora na Uern Natal, resolveu resgatar a história do espaço. “Eu pensei: Nada mais importante do que pesquisar mais a fundo e trazer a memória do que foi esse lugar. E contar a história desse lugar e a transformação que ele teve até chegarmos à universidade”, explica.
A pesquisa identificou quatro fases. A primeira foi o funcionamento do “Caldeirão do Diabo”, de 28 de abril de 1968 a 23 de março de 2006, quando o prédio da sede da unidade prisional foi desativado.
Em seguida, a segunda fase, o “Caldeirão da Cultura”, começou na inauguração do Complexo Cultural da Uern, em 30 de março de 2010. Já a terceira fase, o “Caldeirão da Educação”, ocorreu em 25 de maio de 2022, quando o prédio-sede do campus de Natal foi inaugurado.
A quarta fase, em execução desde 2023, é chamada de “Caldeirão da Iluminação”. A etapa está relacionada ao projeto de extensão Jardim Sensorial, coordenado pela professora no Departamento de Turismo da Uern. Segundo ela, o projeto de construção está aprovado.
Impacto histórico
Instalado no Potengi, em Natal, a Penitenciária João Chaves marcou a história potiguar. Sua instalação teve repercussões que ultrapassaram os limites da unidade prisional, incluindo a chegada da energia elétrica à zona Norte, cuja implantação esteve associada à construção e ao funcionamento do presídio, e o surgimento de conjuntos habitacionais.
A unidade foi desativada em 2006, quando o prédio prisional foi demolido. “A importância de mantermos essa história viva é justamente pela riqueza que essa história traz para nós”, diz a pesquisadora.
De acordo com ela, a unidade foi criada com o intuito de transformar as pessoas privadas de liberdade, que participavam de oficinas profissionalizantes.
“Essa memória precisa ser vista, precisa ser contada e repassada como um pertencimento nosso, porque somos o único lugar no planeta que tem esta história: um dia foi um presídio, na proporção que foi, temido e falado nacionalmente, e se transformou em uma instituição de ensino, uma universidade”, explica a professora.
Pedro Paulo demonstra orgulho pelo trabalho desenvolvido pela filha. Também filho dele, Jefferson Cipriano Silva é sargento da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e esteve na Uern na tarde desta terça.
Quanto à memória do “Caldeirão do Diabo”, o segundo-tenente reformado lembra que havia ali o “Trio Ternura”, composto por criminosos conhecidos em Natal.
“Tudo quanto não prestava estava contido ali, com os personagens que vocês já sabem […] O Trio Ternura pintou e bordou aqui dentro, meu Deus do céu. Cada atrocidade que eu não teria a capacidade de contar a vocês. Eu não gostei daquele nome, ‘Caldeirão do Diabo’ – mas que parecia, parecia”, afirma Pedro Paulo.
Como participar
O tour guiado passará a ser disponibilizado para visitas de escolas, pesquisadores e outros grupos interessados. O agendamento pode ser feito por meio do e-mail da professora: jarileidesilva@uern.br.
O roteiro tem duração aproximada de 30 minutos e apresenta a localização e a função das antigas estruturas, que se transformaram em um ambiente de ensino, pesquisa e extensão.
A Uern Natal, diz a pesquisa, é o único local do planeta que já foi presídio e se transformou em universidade. Jarileide Nasi passou a atuar no campus em 2016, quando iniciou um trabalho sistemático de recuperação da memória do antigo presídio.
Sua pesquisa deu origem ao projeto de extensão “Memorial do Imaginário Potiguar”, que articula atividades de ensino, pesquisa, extensão e iniciação científica.
Ao longo de uma década, ela identificou mais de 16 pontos de interesse histórico no campus. Quatro deles receberam sinalização interpretativa e passaram a integrar o percurso inicial do tour.
A proposta é permitir que diferentes públicos conheçam a história da antiga penitenciária e compreendam as transformações sociais e urbanas relacionadas à ocupação daquele espaço. Mantive a fala sobre os pontos de interesse como consta no impresso: “40 anos e oito meses” e referência à demolição como estavam, pois os dois pontos precisam ser conferidos antes de uma alteração.
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte